A Febre das Moscas — Parte 3

O RETORNO

Cantus Firmus
Sep 5, 2018 · 3 min read

Sr. Ademar, o dono do palácio infectado pelas Moscas voltava para o Brasil de suas férias na Suíça. Em sua estadia, como de costume, não teve contato com ninguém de seu país varonil. Ele era uma pessoa sozinha, não tinha familiares, não era casado, e ninguém sabia se um dia teve filhos ou não. Gostava de aproveitar a vida. Além de anfitriar festas requintadas em sua mansão, Ademar viajava com frequência. Não gostava de ser incomodado por ninguém em suas viagens sabáticas, por isso não levava nenhum celular consigo. Na Suíça ficou em um spa no alto das montanhas, longe de sinais de internet ou televisão. Ele vinha na inocência de encontrar tudo exatamente como estava.

Durante seu voo de volta para casa colocou os fones de ouvido e veio escutando Beethoven de Copenhague até São Paulo. Não suportava choro de bebês no avião e nem conversas triviais com outros passageiros. Colocou sua máscara para dormir e veio embalado pelas sonatas para piano de Ludwig.

Quando desembarcou no aeroporto viu aquele caos instalado em solo brasileiro. Famílias correndo de lá pra cá, gente desesperada chorando e pessoas furiosas discutindo com funcionários das companhias aéreas. Ademar não entendeu nada daquilo. Viu uma moça ao seu lado tentando comunicação com a família a todo custo e não conseguindo. Perguntou para moça:

- O que está acontecendo aqui?

A moça desesperada com os olhos já lacrimejando, disse:

- Eu não consigo falar com eles. Não consigo falar com minha família!

Colocou o celular na orelha para mais uma outra tentativa e saiu andando sem rumo, deixando Ademar sem resposta.

Um funcionário da empresa aérea coloca as duas mãos em formato de concha na boca, simulando um megafone fala em alto e bom som, para todas pessoas que estavam por perto ouvirem.

- Quem viajou de Primeira Classe, faça uma fila na minha frente e tenha seus bilhetes e RGs em mãos. Repito: Quem viajou de Primeira Classe, faça uma fila na minha frente e tenham seus bilhetes em mãos.

Uma fila foi feita rapidamente. Enquanto o Sr. Ademar esperava sua vez com sua passagem em mãos, olhava para os lados e tentava entender o que poderia estar acontecendo. Por que aquelas pessoas estavam tão apavoradas? Sempre achou que as pessoas, principalmente brasileiros, exageravam em tudo. — Não deve ser nada demais — pensou. De canto de olho, Ademar percebe que dois rapazes o observavam da cabeça aos pés. Ouve eles cochicharem:

- Olha esse velho. Ta na cara que tem dinheiro.

- Esse tá fodido…

Ademar começa ficar receoso. Fechou a cara e esperou sua vez na fila.

- Sr. Ademar, bom dia. Sei que a situação é complicada, mas um outro funcionário de nossa companhia irá esclarecer tudo para vocês. Disse o rapaz da empresa que iniciou a fila.

Ademar, já nervoso, pergunta:

- Mas que diabos está acontecendo aqui?!

- Calma, senhor. Tudo será esclarecido. Dirija-se ao nosso lounge VIP, por favor.

Ademar aumenta o tom de sua voz:

- Eu quero explicações agora! Por que todo mundo está desesperado!?

As pessoas da fila dirigem olhares de estranhamento para ele. O rapaz da companhia aérea percebe que Ademar não sabe nada sobre a Febre das Moscas. Chama uma funcionária para acompanhar o senhor. Cochicha para ela alguma coisa e apresenta a moça para Ademar:

- Sr. Ademar. Essa é Patricia, ela te acompanhara até nossa sala. Boa sorte.

Patricia olha bem fundo nos olhos do velho. Um sentimento momentâneo e indiferente de pena adentra a alma daquele senhor.

renan monteiro


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