A Febre das Moscas — Parte 8

O FIM

Cantus Firmus
Sep 5, 2018 · 4 min read

Pessoas vem e vão. Neste dia a feira estava movimentada. Semana passada fez um tempo bom, o plantio foi farto naquele sertão. Hoje as famílias estavam com sacos cheios, prontos para trocarem o que colheram. Ademar, acompanhado de Amalia caminha por entre as barracas. Ela avista uma conhecida e vai cumprimentá-la. Ademar também avista algo de seu interesse. Aquela barraca ali no canto tem alguma fruta bem vermelha, que Ademar torce para ser morangos. Ele se aproxima e sua boca enche d’água. Há quanto tempo ele não come um desses. Isso é raridade por aqui. A mulher, dona dos morangos vermelhos, exige trinta batatas por cinco morangos. Ademar sem pensar e sem consultar Amalia, entrega as batatas. Apanha os cincos morangos. Pega um, olha bem praquela cor vermelha e coloca na boca. Sua imaginação viaja pra sua infância.

A brisa é gostosa como o sono que embala aquele bebezinho no final da tarde. As árvores dançam com o vento, e a grama não tinha como ser mais verde. Dentro berço totalmente branco com alguns detalhes de renda, a criaturinha está com sua boca toda vermelha e as mãozinhas para o alto, pedindo mais morango.
- Mas, Ademarzinho. Você ja comeu um monte de morango. Vai ficar com dor de barriga. — alerta Maria, sua babá.
O pequeno Ademar não se importa. O sono tenta vencê-lo, mas sua vontade por mais uma mordida daquela fruta deliciosa é mais forte. Ele agarra o morango das mãos de sua babá. Enquanto ele se delicia, uma cesta cheio deles o espera ao lado de Maria, que o dia inteiro serve Ademarzinho com a quantidade de morango que ele quiser. O dia vai caindo e o bebê pega no sono. Enquanto isso a cesta se mantém cheia, e será a sim por (quase) toda sua vida.

Seu devaneio é interrompido por uma mulher que se agarra, quase caindo, em seus brancos e suplica.

- Pelo amor de Deus. Meu filho vai nascer. Me ajuda, moço!

A mulher está com um vestido preto, mesma cor do véu que cobre sua cara. O suor se mistura com seu choro, que escorre pelo seu queixo. Não conseguimos ver direito o rosto da mulher, ela esperneia de dor e pede ajuda de Ademar. O pai dele era dono de um Hospital em São Paulo, então ele já viu muitas grávidas por lá. Num instante ele deita a mulher sobre alguma superfície mais digna que o chão para se ter um filho. Ela sente muita dor e grita alta. Atraindo uma pequena multidão que já esta em volta da grávida.

- Alguém me ajuda aqui. Ela precisa se acalmar. — Pede Ademar, ajoelhado no chão ele fita as pessoas ao redor.

Uma senhora prontamente se abaixa, pega na mão da mulher, olha nos olhos dela e diz:

- Minha linda, se acalme. Seu filho está vindo. É só fazer força que ele sai.

A mulher respira fundo e faz muita força.

- Respira renovo! Isso… força agora.

Outra tentativa e nada.

- Muito bem. Denovo!

Mesmo com toda força do mundo a mulher demora pra tirar o bebê de lá. Ademar começa a ficar tonto.

- Isso, falta pouco! — Grita a velha senhora que segura a mão da mulher e espia lá embaixo pra ver se algo está saindo.

Tudo ao redor de Ademar começa a rodar. Um asco toma conta dele. Ele não consegue pensar em nada, só sente um nojo vendo aquela cena. O gosto do vômito toma sua boca. Ele se segura e não entende o que está acontecendo. Agachado, ele se afasta da mulher dando luz. A medida que ele vai indo pra trás ele encara o bebê que já mostra sua cabeça querendo sair. Ademar, olha bem praquilo e ao invés de uma criança, ele vê uma cobra saindo de dentro da moça. Desesperado, com os olhos arregalados e ainda agachado, ele se arrasta pra fora da roda que se formou ali em torno. Ninguém percebe seu delírio, todos estão assistindo aquela mulher dar a luz.

Ademar se desvencilha da multidão e se arrasta pelo chão. Vômito sai pelo seu nariz e excremento pela parte de baixo. Ele cai com as costas no chão e cara pro céu. Abre com dificuldade os olhos. O sol invade sua visão. Ele fica ali por alguns instantes tentando respirar. Um zunido começa a ser ouvido. O som chega mais próximo, e logo um enxame de Moscas tapam o sol que invadia seus olhos. Ele fica calmo e sabe que aquele é seu fim. Tenta se lembrar de sua mãe e seu pai. Tenta se lembrar de sua vida cheia de prazeres e riqueza. As primeiras Moscas adentram seus orifícios. Ademar se mantém estático no chão. Sente a última brisa desse mundo e morre.

As pessoas antes entretidas com o nascimento da criança percebem o ataque das Moscas. Se desesperam, achando que serão os próximos. Uma correria é instaurada. Pessoas gritando de cá pra lá e de lá pra cá. No meio disso tudo Ademar morre deitado na terra, sozinho, pobre e desconhecido.

renan monteiro


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