Trombeta-de-Anjo

Lentamente, duas figuras borradas pelo calor do sol se aproximam, cortando o chão de terra batida com aqueles cavalos magros, João Teixeira e Carcará desfilam por aquela cidadezinha com a cabeça de um dos maiores latifundiários que o povo um dia temeu. Erguida por João, a mostra para todos verem, a cabeça morta pinga sangue ainda quente.

A senhora escorada no batente leva a mão a boca, não acredita no que está vendo, logo, seu marido aparece na porta, põe o pé pra fora da casa e vê aquela cena, no segundo seguinte volta um passo e se esconde na sombra da casa. As crianças que ali estavam brincando, correm pra bem longe, os mais velhos cobrem os olhos dos menores. O dono do bar não acredita no que vê, e encara a cabeça sem vida que ainda está com os olhos abertos.

João Teixeira lidera o caminho, Carcará vem atrás, olhando no olho de cada um dos moradores da vila. O vento abafado sopra, os dois vão caminhando devagar sertão a dentro. O rastro de sangue borbulha no chão quente daquela terra esquecida por Deus.


O sol escaldante daqueles dois dias de viagem não dá trégua nunca. O cansaço é evidente em Carcará. João Teixeira, que nunca demonstrou fraqueza em sua vida, não continua galopando com a mesma pose e vitalidade que saiu daquela fazenda com a cabeça morta na mão e vários corpos para trás.

Esbaforido e preocupado, Carcará diz:

- Onde diabos é isso? Que diacho de lugar que nunca chega.

- Aquele cabra sempre se escondeu bem.

O vento abafado já nem sopra mais. Os cavalos mal conseguem dar mais um passo quando uma casinha bem no fim do horizonte daquela planície é revelada.

João Teixeira está pálido e sem vida, seus lábios estão da cor da caatinga. Junto com seu comparsa, se aproximam da casinha. Logo na entrada, dois sertanejos magros e altos fazem a segurança com um mosquetão cada. A porta se abre e de lá sai Volta Seca, o mais poderoso homem daquele cangaço, com uma cicatriz no rosto que aposto que você nunca viu maior, cabra de botar medo até em Corisco e sua gangue. Ele boceja e saúda os recém-chegados:

- Pode vim entrando, pode vim entrando…

João Teixeira e Carcará, exausto da viagem, sentam nas cadeiras na frente da mesa de Volta Seca, que com as pernas em cima dela e equilibrando-se só com dois pés traseiros de sua cadeira pica seu fumo e olha no olho dos dois viajantes:

- Se vocês conseguiram chegar até aqui eu espero que as notícias sejem boas.

João Teixeira, suando frio, prontamente fala:

- Tá no saco, lá fora. (Cof, cof)

Carcará percebe a fraqueza na fala de João e observa o parceiro atentamente.

Volta Seca, oferece:

- João tá um caco. Tá ficando velho, toma uma água, toma.

Duro e doente, João Teixeira recusa:

- Sou cabra macho! (Cof, cof)

– Ta certo, vamos pro que interessa então — disse Volta Seca que se levanta de sua cadeira, guiando os dois até lá fora para ver o prêmio que encomendou.

João coloca a mão na boca e percebe que na sua tossi está saindo sangue, ele está enjoado e caminha com dificuldade até a porta. Enquanto isso, Vila Seca profere xingamentos ao latifundiário morto:

-… finalmente, aquele miserávi, filho de uma égua…

Lá fora, João Teixeira desempacota a cabeça do odiado-senhor-de-terras e a ergue na frente de Vila Secas, que fica maravilhado com o que vê:

-Até que enfim!

Carcará observa a mão de seu parceiro tremer muito. João bambeia de um lado para outro, larga a cabeça morta no chão e segura bem forte seu peito. Ele cai de joelhos, sua visão fica turva e embaçada. Ele consegue ouvir as últimas tentativas de socorro de quem ali estava, mas já era tarde. O calor, o sertão e aqueles homens presenciam seu infarto.


De costas, um homem misterioso está sentado na mesa daquele bar de fim de mundo. Já tomou três doses de cana. Alguém se aproxima pelas costas do homem junto com a quarta dose, e por cima do ombro do rapaz, entrega um pacote e diz, sussurrando:

- Foi tiro e queda. O coração não aguentou…

Logo, o traidor vira e sai andando do bar. Ele chega na porta, coloca seu chapéu, monta em seu cavalo e galopa lentamente em direção a vastidão daquele sertão.

Possível e única foto de Carcará, o traidor. (imagem meramente ilustrativa)

renan monteiro