Polarização Raivosa
Somos muito extremistas, polarizados. Ou é esquerda ou é direita. Não existe meio termo. Ou oito ou oitenta.
Uma bom exemplo é a raiva. Afinal, quem nunca sentiu raiva?
Há duas maneiras de lidar com a raiva. Ou a pessoa explode, porque é melhor explodir do que guardar, ou a pessoa guarda e engole a raiva, explodindo em algum momento futuro.
Percebe como é oito ou oitenta? E pior percebe que mais cedo ou mais tarde haverá uma explosão impulsiva?
Quem só enxerga essas duas maneiras de lidar com a raiva está sendo bem simplório.
A raiva não surge de uma hora para outra como muitos pensam. A raiva é um acúmulo de frustrações.
Você não "quebra" uma loja porque foi mal atendido. Você "quebra" uma loja porque comprou um aparelho que veio com defeito, a teve problema com a garantia, voltou a dar o mesmo problema, ainda pegou trânsito para chegar na loja, … uma sequência de frustrações. Uma sucessão de coisas que você gostaria que fosse de um jeito e acabou saindo de outro.
Não justifica. Mas, ao menos, explica.
Uma maneira mais inteligente de lidar com a raiva é ser excruciante sincero com você mesmo.
Tudo bem que alguém lhe pergunte como está e responder com um estou bem. Mesmo que você esteja com raiva. Não precisa ser sincero mas fale a verdade. Vamos combinar que você está bem. Só não está nos seus 100%.
Agora com você… a estória é diferente. Com você é preciso uma sinceridade excruciante! Só assim você vai poder perceber as frustrações, lidar com elas e não atingir o nível raiva explosiva.
Nada de errado com a raiva. As pessoas energam algo negativo na raiva. Não vejo assim. A raiva é um manancial de energia gigantesco que você pode usar para mudar o que está errado. Raiva antes de tudo é indignação. Uma indignação que faz as pessoas mudarem o mundo. Use-a dessa maneira. E não para acelerar o seu coração, aumentar a sua pressão, deixar a sua respiração ofegante, injetar adrenalina no seu corpo e invadir o direito dos demais…
Por exemplo ontem, estava na fila para almoçar, já era tarde, umas 15h, e na minha frente estava um senhor de idade.
Tudo o que eu queria era comer. E não é que o vovozinho resolveu puxar papo com a atendente?
Senti a vontade de dizer "ôôô isso aqui não é lugar de bater papo não".
Na hora me toquei. Por que estou com essa raiva?
Fui excruciantemente sincero. Queria comer. Estava com fome. Tinha outras coisas para azer no horário de almoço.
Aí veio a ideia de fazer um experimento. Vou pedir a mesma coisa que o vovozinho.
Qual prato foi maior? Qual prato estava mais bonito?
O do vovozinho. Nem precisa responder.
O vovozinho criou empatia. Estava jogando conversa fora. Mas é essa conversa fora que faz o que todo ser humano quer: conexão.
Quem nunca foi pedir um descontinho numa loja e o vendedor disse que não?
É fácil negar um pedido quando não temos empatia com o outro.
Coisa que não aconteceria com o vovozinho de certo. Ele é sábio.
Imagino ele numa loja:
- Estou há 9 meses juntando grana da minha aposentadoria para comprar esse produto.
- Bonito relógio, gostei. Quero comprar um desse para meu fiho.
- …
Gerou empatia com o vendedor, vai ser mais difícil de ter o desconto ou qualquer outro pedido negado.
Não precisa ser esquerda ou direita. Oito ou oitenta. Há diversos outros caminhos, muitas matizes, além do próprio caminho do meio.
Seja excruciantemente sincero com você e observador.
Espero que hoje em diante meu prato de almoço seja mais caprichado.