Furiosa

Durante a gravação de Stranger Things, os produtores do programa tiveram que convencer Millie Bobby Brown que raspar a cabeça e entrar no personagem de Eleven (ou El) era uma boa idéia. Tarefa árdua, que cumpriram mostrando a ela um pouco de Furiosa, personagem de Charlize Theron no filme Mad Max. Quatro moças fortes — duas ficcionais, duas reais.

Apresento aqui uma quinta. Seis anos. Vítima de uma negligência absurda da mãe, que usava a pobreza como desculpa para descuidar da higiene da menina. Chegou para mim com uma história sem nexo, o que é típico em casos de abuso e negligência. Talvez não valha a pena descrever os detalhes da doença que forçou a equipe médica a raspar a cabeça da moça para tratá-la. Basta apenas dizer que tudo poderia ter sido evitado com uma barra de sabão e um pouco de juízo.

Quando fui raspar o cabelo daquela menina, ouvi alguns choros. “Não quero parecer um menino, não quero”. A menina estava só, mesmo aninhada nos braços da mãe. Furiosa não estava ali para me ajudar a tratar aquela menina, e não estava ali para ajudar aquela menina a se sentir forte. Não consegui realmente me conectar com ela, mas fiz o que podia.

Um mês depois da alta a vi novamente no consultório. O chapéu escondia os cabelos crescendo, escondia as feridas que cicatrizavam bem. Ela me agradeceu. Pelo que soube o conselho interveio junto com a mãe e ofereceu orientação. Mesmo sem ter visto o filme, havia agora um pouco de Furiosa naquela menina, uma garra de viver.

Disso tudo eu só tiro uma coisa: algumas mães não merecem seus filhos, alguns filhos não merecem suas mães.