De joelhos, o protesto silencioso e a luta sem fim — sobre racismo, marketing, esporte e política

Colin Kaepernick não é um dos melhores jogadores da história da NFL. Em algum momento de sua carreira, foi, sim, um quarterback ótimo, que amassou defesas adversárias (Green Bay ainda sonha com as corridas dele) e levou o San Francisco 49ers ao Super Bowl XLVII.
Ao comemorar seus touchdowns corridos (muitos, à época), criou um gesto próprio, batizado pelos norte-americanos (que gostam de apelidar jogadores, jogadas, gestos, técnicos, jogos e tudo mais) de “kaepernicking”, ou o ato de beijar o próprio bíceps. O cara era o real deal do momento, difícil de ser marcado, um verdadeiro líder em campo, que havia desbancado o antigo titular de seu posto no meio da temporada regular e ainda levado o time a um lugar onde não chegava desde 1995.
No entanto, o gesto que fez a fama de Colin ficar maior ainda se assemelha ao “Tebowing”, do glorioso Tim Tebow, mas em uma ocasião completamente diferente. Na execução do hino nacional dos Estados Unidos, antes de um jogo de seu time, ele se ajoelhou. Em entrevista, disse que não ficaria em pé demonstrando orgulho em apoiar uma bandeira de um país que oprime os negros.
A atitude dele foi vista como desrespeitosa por muitos, mas, por outro lado, também teve (muitos) simpatizantes, celebridades americanas e times da NFL inteiros que se ajoelhavam durante o hino, em solidariedade à causa. Não foi a primeira (nem a última) vez que um atleta protestou por alguma causa política ou social, mas a reação das pessoas, nos anos 2010s é o que mais assusta.
Donald Trump (claro) não perdeu a oportunidade de passar vergonha e disse que mal esperava ver um dono de time da NFL demitir um daqueles filhos da puta protestando, por desrespeito à bandeira. Mas, e o respeito à raça? À igualdade de gênero, de raça, de classe social? Talvez ele não fosse a pessoa mais apta a falar sobre o caso — mas ele o fez durante sua campanha eleitoral (alguma semelhança com alguém por aqui?).
Agora, em 2018, Colin Kaepernick ilustra a nova campanha da Nike, que celebra os 30 anos do slogan “Just do It”. A peça diz “believe in something. Even if it means sacrificing anything” (acredite em algo, mesmo que isso signifique sacrificar tudo). A impactante mensagem também é passada por outros atletas negros, como LeBron James, Serena Williams e Odell Beckham Jr.
Claro, por todo o histórico, Colin é o que chama mais atenção, pelo bem e pelo mal. O outro lado da moeda se aflorou e pessoas começaram, em protesto, a queimar (!) produtos da Nike que usavam, como tênis, camisetas e meias. Pior do que isso, alguns responderam ao tweet de Colin com a mesma frase da campanha, mas em uma foto de Pat Tillman, jogador do Arizona Cardinals que morreu em combate, servindo ao exército americano no Afeganistão.
A hashtag dos “protestantes” é justburnit. Por outro lado, agora já presidente, Trump comentou sobre o caso novamente, dizendo que a campanha traz uma mensagem terrível, e que não deveria ser passada. As ações da Nike caíram 4% em um dia e a marca teve 2,7 milhões de menções nas redes sociais, divididas entre amor e ódio.
Colin, por outro lado, segue sem um time desde março e processa a liga por boicote, mas segue a sua batalha contra o racismo. Até onde e até quando a discussão sobre racismo vai ter esse tipo de capítulo? Até onde e até quando as pessoas vão enxergar superioridade umas em relação às outras por gênero, raça, orientação sexual e outros motivos?
Aqui, no Brasil, há quem pregue que esporte e política não andam juntos, mas, bem, aprendemos e vemos exemplos, como o de Kaepernick, em que uma coisa leva à outra e vice-versa. Enquanto há manifestação, há debate, há educação. Que ambos continuem juntos, e que a luta obtenha resultados positivos. Não existe um lado a se escolher, mas sim uma harmonia a se alcançar: é o lado humano que deve vencer. Mas, quando isso vai acontecer?