Tatuagens, Voldemort, reflexões e a vida em sociedade
Eu (ainda) não tenho nenhuma tatuagem no corpo. Já tenho diversas ideias, alguns estúdios preferidos e a coragem pra fazer, Sinto que, logo, tempo virá e o dinheiro permitirá. Já criei até uma lista de possíveis rabiscos prum futuro (próximo). Tenho certeza que, logo que entrar num estúdio, vou sair com umas duas ou três.
Tatuagem é arte pura, mas, mais do que isso, é colocar na pele algo que não vai sair nunca mais — ou que você acredita e gosta tanto, que nunca vai se arrepender. Alguma frase importante na vida, algo da banda que você mais gosta, uma homenagem pra alguém que já se foi, ou que você ama demais. Na hipótese mais simples, por outro lado, simplesmente um desenho ou texto referente a algo que você goste.
Pra me inspirar mais e ter mais ideias do que tatuar, além de conhecer o trabalho da galera, sigo vários artistas no Instagram e fico completamente impressionado com o nível, uma arte mais bonita, mais bem feita que a outra. Mas, hoje, vi uma que me perturbou de uma maneira que me fez perder o sono: todo mundo em casa já dormiu e eu não.
Em um dos perfis que sigo (seguia), uma foto de um grupo de pessoas que tatuou nas canelas os dizeres “17 confirma”, com a legenda escrita pelo tatuador com tags de apoio ao dito cujo. Os comentários na foto eram 99% negativos e, então, ele apagou o post, claro. Na sequência, tentou se explicar com vídeos, dizendo que era uma brincadeira, que na legenda tinha uma risada (um kkkk), que tem amigos gays, negros, que não tem partido político e nem nada — e que tinha perdido 2 mil seguidores, pedindo para que não voltassem a segui-lo.
Ok, não voltarei. Mas: se você apagou a foto e precisou se retratar é porque realmente pegou mal prum cara conceituado e ótimo artista. Independente disso, não é esse o motivo do textaço. O motivo é: sério que estão fazendo até tatuagem em homenagem a esse cara? Já não basta receber o homem nos aeroportos Brasil afora, chama-lo de mito, compartilhar os vídeos e disseminar todo o ódio que ele propaga?
Seria cômico, se não fosse trágico, ver o apoio que esse cidadão tem, além de um público que enxerga as coisas de uma maneira muito diferente. De nada vale a política em si, a economia, ou mesmo o diálogo. O que vale é mitar. Vale é ser respondão, mal educado, polêmico, vale o confronto, inclusive acima de Deus e do Brasil, ao contrário do que ele mesmo diz em seu lema de campanha.
O Lord Voldemort brasileiro fisgou o povo pelo seu lado mais frágil: pelo medo e pela necessidade de “honestidade”. Preza pela família, enquanto quer que os cidadãos de bem possam ter porte de armas facilitado — imagine só poder comprar armas no Walmart, como nos Estados Unidos, que maravilhoso. Diz que o bandido bom, é o bandido morto, que a esquerda, o comunismo e o socialismo (todos juntos) precisam acabar — convoca, aliás, o tal cidadão de bem para a guerra. Fora o apoio ao golpe militar — sem dizer que foi golpe em momento algum — torturas no período da ditadura, homofobia, desigualdade de gênero e outras atrocidades que nem precisaríamos discutir em pleno 2018.
Independentemente das ideologias do Você-Sabe-Quem, o mais assustador é saber que o povo fecha os olhos a esse tipo de pensamento que vem da cabecinha dele — ou, pior que isso, o apoia. Quanto tempo na mídia esse cara vem ganhando, há anos, desde o Superpop, até ter chegado ao Jornal Nacional, pra defender tudo aquilo que pensa e mitar bastante? Talvez ele tenha tido espaço demais? Agora, na verdade, talvez seja tarde demais e os 7 segundos aos quais ele têm direito nas propagandas pouca (ou nenhuma) diferença farão. A imagem já está mais do que construída e tem muita gente com ele, com o “17 confirma” tatuado no corpo e na mente.
Mas, já terminando a reflexão toda, será que precisaríamos ter esse tipo de debate em 2018, mesmo? Será que a gente precisa perder tempo em discutir quais ideais são melhores: esquerda ou direita? Quando será que vamos perceber que não precisamos escolher um dos dois lados, mas sim todos estarmos do mesmo lado para, enfim, conseguir fazer as coisas darem certo?
Quantas vezes você já colocou a mão na cabeça e repensou seus atos, se está fazendo o melhor que pode para um futuro melhor, para você e as próximas gerações? Mais do que isso, o quanto você já se questionou se está fazendo um presente melhor? Se você acha o Brasil um país corrupto, mas tem a sua carteirinha de estudante falsa, que tipo de governo espera? Enquanto você paga os seus impostos, o governo também tem suas “carteirinhas”. O que faz com que os tais esquemas e o tal jeitinho brasileiro, nunca morram.
Quantas vezes você já pensou no coletivo, e não em si? O bem-estar do outro é tão importante quanto o seu, porque, pasme, são o mesmo bem-estar. Dividimos o mesmo país, as mesmas leis e, mais do que isso, o mesmo planeta e a mesma raça humana. Expulsar venezuelano na porrada, sob acusação de “comunismo” é a melhor solução?
Será que mitar é o que mais precisamos no momento?
Quando vamos aprender a viver em sociedade? (ou que já vivemos em uma sociedade?)
Independentemente do número que você for apertar antes do confirma (e eu sinceramente espero que não seja o 17), tenha consciência de que não é só você ali, votando, que será impactado, mas, sim, os 210 milhões que habitam essa terra. Alguns, inclusive, serão muito mais impactados que você.
Pense bem e vote consciente. Sim, isso é possível!
E muito cuidado antes de escolher a sua próxima tatuagem.
E você, amigo tatuador, cuidado ao tatuar seu próximo cliente.