Anamnese
De costas voltadas ao presente, encarno a mais pura das anamneses e grito num timbre mudo para alguém, eventualmente nesse sobrado, que me ouça e me chame um ascensor.
Em tempos vivia o simulacro da esquecida aptidão para sentir. Entendia-me em marés de propriedades somáticas e psíquicas sem nunca compreender o quanto me tornava fraco e vulnerável, não questionando a incoerência dos mais belos argumentos e premissas que eu próprio criei. Impermeável eu.
Ao passo da dissimulação, alguém assistia — ingénua, leiga, em braços descerrados — a um truque barato de anfiteatro sobre o qual sentia receio, mesmo que nunca manifestado. Tomei-me então pelo ensejo de ser, um dia, passivo na praxis do amor. Transformei-me em algo imaterial e resvalei a minha postura elegante, voando por aí como se tu nada fosses.
A gravidade, a grande vida de alguém, a esfera, os teus instintos selvagens, a fermentação das uvas e o interior… ciclos. Tal como o clima, a minha estação havia de voltar, talvez fora de tempo, mas sempre fria e hostil, isto como era quando partira.
A fervura e contrição de um ser nunca impoluto consumiram as peças fundamentais, de uma massa orgânica movida já não a determinação e alguns alimentos, mas a expressividade e alguma sensatez - para meu bem. Eu sou agora mais estável e maduro, como as brisas calmas da manhã. Não resvalo por aí como se o mundo fosse algo só meu e funcionasse à base de um qualquer controlo remoto.
Isto não é a playstation por amor de Deus… de nós, da Barbie e do soldado, da grande estrela e da sorte no casino, de ti e da tua vontade de controlar o animalesco. O que é isto então? São ciclos, como já disse. São palavras que ecoam, desdobrando-se nelas mesmas e criando outros significados, em universos interiores, uns dentro dos outros, e a noção de tempo se vai desfigurando e…
Tempo, volta atrás… meu futuro adormeceu no pretérito, que nada de perfeito carrega, por favor tempo… sei que não me ouves mais — nunca me ouviste sequer. Foram vozes que eu criei em mim, pensando estar em perfeita harmonia com o mundo e com os mundos. Mas não, afinal eu falava sozinho. Impermeável eu.