Criança de Vidro
Hoje vejo-me munido de valências e feitios, a tentar descobrir aquilo que sou e o que faço aqui. Sinto-me confuso , para ser honesto, porque o que era certeza ontem… hoje é so uma imagem meio desfocada, um pontinho lá no fundo, um cheiro que se vai desvanecendo com o tempo. Então cai um vazio de incertezas e começo a duvidar se serei um bom homem ou não.
Fui feito ao espelho de Narciso e com o tempo me fui defendendo e desviando daquilo que não queria ser, egoísta por natureza. Não o podia ser, não fui feito para o ser, porque não fui nem nunca serei como os belos e como os viris. Como os ricos e como os poderosos.
Porque não? — perguntas me-tu. Porque o universo escolhe a tua missão, essa práxis no meio de tantos vácuos e valores perdidos no meio de nós.
Então caio na defesa, fechando-me num universo que só eu controlo e só eu posso me qualificar de acordo com o que eu próprio criei, e ai… volto a ser egoísta, volto a desfocar a percepção que antes era clara e nítida, volto a ser filho de Deus… como não queria.
Vivo numa armadilha que minuciosamente fui construindo, à medida que fujo do ego, do fogo, da hipnose desses olhos — e que olhos grandes — sinto-me observado e observador em tempos iguais. Sinto o cheiro da raiva daqueles que me galam, talvez por saberem que os galo de volta, e vejo olhos famintos do lobos que se vestem de lobos e esperam um dia serem leões com vida de cordeiro.
Mundo do caralho…
Aí acabo por viver sob as medidas do controlo e da castração, da disciplina e dos feitos, para compensar o tirano imposto nos dias de ontem, quando crianças, onde sonhos são não mais que nuvens que passaram e agora vivem sei lá eu onde…
Foi assim que aprendi a ver o mundo, sozinho, sem guias e sem regras. Assim seja, então crio as minhas.
Passei, no entanto, a assumir que o mundo é não também uma extensão de mim — O outro sou eu, eu sou o outro — sim sim, mas cada macaco no seu galho.
É quando me sinto só… e percebo que tenho esmagado o mundo com a minha supervisão. É aí que me sinto fraco por aplicar poder sobre aquilo que mais quero, por querer demais talvez, e ai a coisa fina-se. É aí que me sinto incompreendido, quando assumo que compreendo o universo e todas as formas vivas em si.
Nada nos salva de uma eventual implosão quando sufocamos o nosso íntimo, aquando o ego sussurra e nos mente como fazíamos às crianças mais fracas que nós. Nunca ouviste falar de self bullying?
Maldito ego que nos faz acreditar que somos de ferro, blindados às forcas do mal… quando o mal vive dentro de nós. Malditos nós…
Mergulhados numa malha social que nos faz crer que o poder, o respeito, o salário, o físico, o estilo, o glamour e todas essas palhaçadas que julgamos ser importantes, são as respostas que precisamos para encontrar o que somos por natureza.
Eu não sou corpo de Deus, imaculado, e sei que não posso deixar de viver um mundo que também é dos outros. Mas dá para pararmos com a psicose por um bocado? É que noto que tenho procurado as respostas nos lugares errados. Preparando-me para a frieza da rotina e para os perigos de gente que compete por tudo e por nada; por quererem ser mais que alguém, não interessa quem.
Todo este tempo construindo essa redoma interior que “protege” aquele pequeno ser. Redoma que não protege, e ao invés, sufoca a criança que vive dentro dela. Essa é a criança temos dentro de nós e essa é a maneira que decidimos castrar a nossa existência. Porque temos medo de ser vulneráveis como os miúdos. Porque não queremos ser atacados, engolidos, esmagados pelo mundo sujo em que vivemos. Porque temos medo de fechar os olhos e confiar no incerto. Porque temos medo de abrí-los e perceber que não somos crianças mais… e deixámos de ser especiais. Porque temos medo de amar. Porque temos medo da nossa imaginação.
Pelo menos eu tenho esses medos — Lá estou eu de novo a achar que todos sentem o que eu sinto.
Mundo do caralho…