Indo do Ponto A ao Ponto B

Pessoas da comunidade alimentam aplicativo de transporte no Brasil.

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Estudantes se preparando para mapear as rotas de ônibus locais.

Você não precisa ser um expert em TI para criar uma solução tecnológica inteligente. Às vezes, o mais difícil do nosso trabalho na Caravan Studios é convencer as pessoas da comunidade que o seu expertise, inteligência e compromisso com uma causa os equipa com as habilidade necessárias para projetar um serviço ou aplicativo móvel que resolva problemas reais.

E ao falar em “projetar”, eu não quero dizer com bits e bytes, mas com conhecimento: dos problemas, do histórico e, bem, com cola e papel também.

Então quando pessoas da comunidade e bibliotecários se encontraram em bibliotecas públicas locais em Porto Alegre e Belo Horizonte, no Brasil, para participarem dos nossos eventos Geradores, trouxeram tudo isso: o seu interesse, as suas experiências e o seu desejo de transformar, juntos. E realmente criaram designs!

No final do primeiro dia, haviam criado uma lista de problemas em comum enfrentados por eles:

  • Onde descarto os meus resíduos sólidos?
  • Onde estão os pontos de ônibus e quando que o ônibus passa?
  • Onde estão as feiras de produtores?
  • Como podemos apoiar produtores locais?
  • O que está acontecendo nas bibliotecas locais?
Os protótipos ficaram assim.

O próximo passo foi concentrar os esforços para transformar esses problemas em protótipos de soluções. Eles criaram os designs usando papel, cola, tesoura — itens básicos — para sonharem grande e visualizar como a tecnologia pode ajudar a resolver esses problemas. Esses protótipos de papel são fundamentais para comunicar as necessidades e funções específicas que a comunidade acredita que a ajudará a resolverem esses problemas. Depois de concluídos, os protótipos são expostos para um conjunto maior de pessoas em local público — as bibliotecas locais. Os visitantes das bibliotecas, as pessoas da comunidade — todos — foram convidados a votarem nos designs que sentiram que resolveriam os problemas que eram mais importantes para eles.

Ouviu-se a voz do povo

Os votos públicos sobre os protótipos nas bibliotecas públicas locais

Os protótipos que receberam o maior números de votos foram de ferramentas para ajudar a encontrar onde descartar e reciclar lixo, descobrir o que está acontecendo em bibliotecas locais e um aplicativo para descobrir onde está o meu ônibus. Cada um desses designs acabou virando uma solução tecnológica, mas nesta história vamos contar o caso do ByBus, o design que criou uma solução tecnológica para ajudar as pessoas da comunidade a encontrarem facilmente o seu ônibus quando precisarem.

Se você vive em uma cidade grande com um sistema robusto de transporte, você já deve ter usado um aplicativo móvel para te ajudar a encontrar um ponto próximo ou descobrir quando o seu ônibus passará — possivelmente detalhado ao minuto. Esse era o sonhos das pessoas dessa comunidade: ter informações precisas na ponta dos dedos. Infelizmente, assim como o problema que o aplicativo pretendia resolver, a história teve um percurso não muito linear, sem soluções fáceis.

Pesquisando um desafio tecnológico

Primeiro, queríamos entender o que já existe no mercado. Sempre que possível, preferimos identificar um aplicativo ou tecnologia existentes para solucionar o que ouvimos, ao invés de criar uma solução do zero. Não levou muito tempo para descobrir que na cidade de Canoas, no Rio Grande do Sul, foi criado um aplicativo de trânsito que mostra informações sobre pontos de ônibus, com a tabela de horários, mas não em tempo real. Os desenvolvedores do aplicativo ficaram felizes em conversar sobre ele e compartilhar informações úteis sobre como e porque o aplicativo foi criado. No final das contas, decidimos não compartilhar o aplicativo deles com uma comunidade maior, pois esse não exibia informações em tempo real, que era um problema persistente informado pela comunidade.

Surgem os atores: e o maior não é uma pessoa

Depois de muita pesquisa e muitas conversas com pessoas que criaram aplicativos de trânsito ou que os estudam, ficou claro que havia duas principais empresas além do Google Maps -Moovit e Transit- que compartilham uma grande parte do mercado, mas o papel principal era desempenhado pelo formato dos dados: GTFS (General Transit Feed Specification — que significa Especificação Geral de Alimentação de Transporte), um padrão usado mundialmente para tornar os dados de transporte em tempo real uma realidade. Para usar os dados GTFS para resolver os problemas que a comunidade do Brasil havia descrito, era essencial que os dados estivessem estruturados de um modo específico.

E não estavam.

Conversamos com pessoas que estão desenvolvendo tecnologias e processos de mapeamento em Manila, na Cidade do México, na Polônia, no Quênia, na Áustria. Essas pessoas generosamente compartilharam as suas experiências e conselhos sobre o que buscar. Todas essas conversas nos ajudaram a compreender como uma das primeiras ideias — hackear o sistema em tempo real usando relógios com GPS ou os padles para encontrar as chaves — não era uma boa estratégia. Ao invés disso, pensamos de que modo a comunidade poderia crowdsource os dados para produzir a tecnologia.

Também aprendemos o valor de se ter uma boa parceria com a empresa de transporte. Em uma cidade do Brasil, a concessionária, Bento Transportes, se motivou com o fato de centenas de pessoas da comunidade ter votado em uma solução que as informaria onde está o ponto de ônibus mais próximo e quando o ônibus passará. Os eventos que produziram esses protótipos de solução foram cobertos pela imprensa local, aumentando o alcance a estimulando a imaginação das pessoas da comunidade que desejavam ver essa mudança. A concessionária de transporte estava prestando atenção e disposta a ajudar.

Organizando as legiões de capturadores de dados

Os bibliotecários são colaboradores chave para muito dos trabalhos iniciados pela Caravan Studios. As bibliotecas recebem os eventos da Caravan Studios, permitindo que conjuntos diversos de pessoas da comunidade se envolvam no sonho e design de soluções que resolverão os seus problemas atuais. Os bibliotecários também são conectores habilidosos, com profundo conhecimento de sua comunidade e os desafios e pontos fortes dessa.

Agora que tínhamos entendido o que era necessário para fornecer uma base técnica para o aplicativo de transporte, fomos buscar ajuda junto à comunidade. Uma bibliotecária que estava participando do projeto desde o início entrou em contato com uma escola técnica local, incentivando a participação dos alunos do ensino médio neste projeto original.Essa colaboração, junto com a Trillium Transit, uma empresa com sede em Portland, Oregon, nos EUA, cujo fundador esteve envolvido na criação do protocolo GTFS, alimentou a maratona de mapeamento da Caravan Studios em Farroupilha, Rio Grande do Sul. A meta era mapear todo os sistema de transporte: todas as rotas de ônibus, todos os pontos e os intervalos entre cada ponto de ônibus. Esses dados foram então carregados de dispositivos GPS e smartphones no OpenStreetMap, uma ferramenta de mapeamento de fonte aberta. Estudantes voluntários limparam os dados e criaram o primeiro mapa abrangente do sistema de transporte da cidade. Este mapa serve de base para o feed GTFS, que é gerenciado usando o programa GTFS Manager da Trillium. Esse programa tem um API que permite que o feed seja visualizado pelo Google Maps e aplicativos móveis como o Transit, que lançou recentemente uma versão em português do seu aplicativo.

Como costuma acontecer quando você investiga um assunto a fundo, você aprende algo novo. Quando os estudantes e a Caravan Studios se reuniram em Farroupilha, ficou claro ao conversar com a concessionária do transporte público que as 36 rotas que foram informadas às equipes eram bem mais complexas do que se suspeitava. Em uma cidade pequena como Farroupilha, os motoristas faziam paradas especiais para os usuários que, ao longo do tempo, se tornaram rotas percorridas somente por certos motoristas. O conhecimento do escopo dessas rotas especiais estava sob o domínio do Gilmar, um dos diretores de operação da empresa de ônibus.

Gilmar, cercado de estudantes e outros membros da equipe, compartilhando o seu conhecimento.

Para a sorte das equipes, o Gilmar se dispôs a explicar todas as informações. Esse momento de aprendizado pontuou porque é tão importante incluir membros da comunidade e outras partes interessadas ao longo do processo. Se o Gilmar não tivesse sido convidado para participar do projeto, os alunos teriam seguido adiante e perdido um pedaço essencial do sistema local. Também ficamos super felizes que os alunos contribuíram tanto para esse projeto. A curiosidade, inteligência e entusiasmo deles ampliou o nosso aprendizado e aprofundou o compromisso local com este projeto.

Andando de ônibus com um propósito

Una aluna mapeador no ônibus

Por fim, as rotas foram mapeadas pelos alunos que estavam participando desta oportunidade única de coletar dados locais com fins a melhorar o seu próprio uso do transporte público. Os alunos rodaram nos ônibus, documentaram as informações das rotas e rastrearam as coordenadas GPS para carregá-las na plataforma de fonte aberta, OpenStreetMaps. Em três dias, os estudantes mapearam mais de 200 rotas que agora estão padronizadas e visíveis no aplicativo Transit. A peça chave das informações faltantes agora estavam compiladas pelos alunos locais: o conjunto de dados GTFS faltante.

Tudo é aprendizado

Como muitos dos projetos liderados pela Caravan Studios, este envolveu muito aprendizado, compartilhamento e reunião de pessoas. Ricky Abisla, o principal instigador deste projeto, se conectou com várias pessoas da Colômbia, Polônia, México, Brasil, Dinamarca; organizações como o Banco Mundial, Trillium, Transit, Moovit; e especialistas em transporte como Andy Nash na Dinamarca, Jackie Klopp do Earth Institute da Universidade de Columbia, Diego Cuesy e Cristián Guerrero na Cidade do México, Michal Gorski na Polônia, Gabriel Oliveira e Bernardo Serra do Instituto para Políticas de Transporte e Desenvolvimento no Rio de Janeiro, Flávio André Treib em Canoas, Brasil, e David Schönholzer em Berkeley, Califórnia.

Em retrospectiva, fomos surpreendidos com a complexidade do processo para uma cidade de 70.000 habitantes com um sistema de transporte composto inteiramente por apenas 26 ônibus. O incentivo dos especialistas com os quais o Ricky conversou e as informações valiosas que eles compartilharam alimentaram o cerne do projeto e nos deu a confiança para seguir adiante com os voluntários, estudantes e bibliotecários em Farroupilha que garantiram o sucesso desse projeto.

A coleta de dados ainda não foi concluída e os alunos estão bem preparados para terminarem o mapeamento das rotas remanescentes. Para o futuro, esperamos que a Caravan Studios possa compartilhar e publicar mais detalhes do que vivenciamos e aprendemos. Também acreditamos que outras instituições educacionais podem se beneficiar do currículo que orientou o trabalho dos alunos durante a Maratona de Mapeamento. Esperamos publicar os passos explícitos necessários para implementar um projeto local como o ByBus e acreditamos que teremos a oportunidade de replicar este projeto em outras regiões, posto que dados precisos frequentemente são o elo faltante para se criar um recurso de transporte eficaz.

Junte-se a nós

Por ora, estamos interessados naquilo que interessa você. Queremos ouvir as suas ideias sobre este projeto ou tópico. Ou talvez você gostaria de se juntar a nós- entre em contato!

~Sarah Washburn, integrante da equipe da Caravan Studios