ch ch ch ch ch chaaaaanges

Diego Cardoso
Aug 28, 2017 · 2 min read

é início de tarde de uma segunda-feira no fim de agosto.

minha mãe convidou o vizinho para almoçar aqui em casa porque… sei lá por quê. algo sobre ele estar com muita pressa, preguiça de ir comer fora e minha mãe ser muito solícita.

daqui do quarto eu o ouço falar de boca cheia. e quando não está mastigando fala tão depressa que é impossível entender. e quando não está falando nem mastigando responde um “hã?” para cada frase que minha mãe fala. essas devem ser as três coisas que eu mais odeio em alguém.

eu estou de pijama, sentado na frente do computador, há algumas horas pulando entre abas. já procurei vagas, já pedi respostas sobre outras, já peguei telefone de agências de casting e estou considerando procurá-las.

os estúdios de dublagem continuam não tendo agenda para mim.

no facebook, os dubladores que eu conheço postam o quanto estão felizes por terem conseguido trabalho. eu me sinto meio triste com isso, mas logo em seguida faço questão de pensar que cada um tem seu tempo. estou ficando bom em praticar esse pensamento. no começo era difícil aceitar, mas agora eu realmente acredito nesse mantra.

continuo acreditando que conseguirei um visto para a nova zelândia. revisitei meu cadastro no site da imigração, busquei novas informações, adicionei uma extensão no firefox que vai me avisar quando houver alguma mudança no site. o aviso toca Changes de David Bowie. se essa coisa do visto realmente rolar eu terei de pagar uma taxa e um exame, o que eu nem gosto de pensar levando em conta minha situação financeira atual.

acabei de fazer um quiz no facebook e o resultado deu que eu seria o Dale Cooper em Twin Peaks.

eu deveria estar estudando para o vestibular, mas estou com medo das matérias de física e matemática. medo mesmo. um medo da porra. decidi que até 30 de setembro estudaria apenas exatas e durante novembro, apenas humanas.

ah, pois é, eu vou tentar uma segunda faculdade. até agora não tinha me perguntado se isso é uma boa ideia, como faço todo dia.

de repente eu sou tão monstro quanto o vizinho. a diferença é que ele está de boca cheia, quer dizer, não mais. ele já foi embora e eu ainda estou escrevendo este texto. protelando com sucesso as coisas que eu deveria estar realmente fazendo.

na verdade tem coisas que eu odeio mais nas pessoas. boca cheia, fala enrolada e “hã?” são coisas que eu odeio apenas agora. o que odeio de verdade é preconceito, desrespeito, violência…

que lindo seria se tocasse David Bowie agora.

uma extensão que você habilita na sua vida e a cada uma hora ela atualiza o sistema e avisa se alguma coisa mudou. qualquer coisa. qualquer coisa mesmo.

esse texto não é nada, é só pessimismo. ou melhor, é só uma desculpa para postar uma música do David Bowie, especificamente a que eu preciso ouvir agora.

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    Diego Cardoso

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    Autor de CALOTAS POLARES https://bit.ly/2pacZWb e outras dramaturgias. Tentando o constante exercício da escrita. Às vezes ficção, na maioria pessimismo.