Serena.

A beleza de Serena é distinta. Sua delicadeza é vizinha de cicatrizes que parecem ter sua idade. O contraste é tamanho que faz um parecer o preço do outro. Rastejando em seu rosto e seguindo pelo pescoço, os truculentos sulcos desaparecem sob o pálido uniforme do hospital. Ao entrar no cômodo, ela é recebida calorosamente por seu paciente:

- Então, está tudo bem doutora? Recebo alta hoje?

O silêncio hospitalar do quarto amplifica os mais odiosos impulsos em Serena. Ela examina o ambiente buscando uma única resposta: qual o melhor momento para matá-lo?

- Sim, tudo certo Rogério. — responde ela, virando-se para a porta onde dois policiais fazem a guarda do criminoso ferido.

- Ah que bom. Meu advogado deve estar chegando aqui. Isso tudo foi um tremendo mal entendido. Aquela menina é louca, louca! Me provocou pra cacete e depois fez esse papelão! Coisa de gente desequilibrada — resmungava Rogério, apontando para um o curativo em sua virilha.

A pupilas de Serena dilatam-se. Suas narinas abrem. O coração palpita-lhe a urgência da atitude e suas mãos obedecem. Ela quebra uma pequena ampola que trazia no bolso, sorvendo-lhe o conteúdo com uma seringa e despejando-o na mangueira que transporta o soro.

- O que é isso? — pergunta Rogério.

Serena termina de injetar o conteúdo da seringa pacientemente antes de responder:

- Eu acabo de sair da unidade de tratamento intensivo em que Beatriz se encontrava. Ela morreu.

A notícia perturba o paciente, mas não impede que uma última blasfêmia seja proferida. Num resmungo sigilosamente baixo, o estuprador manifesta-se:

- Pediu por isso, a vagabunda.

A médica senta numa pequena cadeira ao seu lado. Olhos no relógio de pulso. Ouvidos lacrados para toda a sorte de podridão que aquele homem insistia vocalizar.

Até que ele emudece.

Quando Rogério percebe que não consegue mais falar, seu corpo já lhe havia sido privado de controle. Os olhos não respondiam e, por fim, os pulmões. Estava morrendo.

Serena leva a mão ao telefone. Sua calma desrespeita a sinfonia de alertas fúnebres promovida pelos aparelhos.

- O paciente entrou em choque, precisamos entubar. Quarto 401.

Minutos para os vivos, um instante para o morto. Rogério recobra os sentidos ao sentir uma costela quebrar com a feroz massagem cardíaca que recebia de Carlos, o enfermeiro. A vida lhe retornara.

- Ok, ele está de volta. — confirma Serena. — Obrigado Carlos. Vou revisar os exames. Isso é coisa de alguma reação alérgica que ele deixou de anunciar.

Os policiais já haviam perdido o interesse no evento e regressado a banalidade de suas conversas.

- Sem problemas Doutora. — despede-se Carlos enquanto fecha a porta.

A dor cessa, fornecendo conforto e tempo para que o paciente perceba o próprio horror. Ele constata estar enclausurado na própria carne. Seu frenesi só é interrompido pelo tom de voz macio de Serena:

- Preparei um discurso para alguém como você. Faz tempo já. Achei melhor te imobilizar para que evite discordar de mim e tornar-se ainda mais inconveniente. Basta ouvir educadamente, e morrer.

Agora ele sabe. Rogério entende que está sendo castrado de sua vida, e que seu carrasco pretende controlar o processo. A urina lhe envergonha as calças. O vão deixado pela impossibilidade de suplicar é preenchido pelo pânico total.

- Eu já assisti centenas de pessoas partirem. E te digo, só pessoas generosas sabem morrer.

Serena crava uma agulha no testículo esquerdo de Rogério, o local ferido por Beatriz. O excruciante grito poderia ser ouvido na próxima quadra, se lhe fosse permitido gritar. Mas há alguém ouvindo aquele mudo brado de dor: É Serena, que sorri docemente.

As lágrimas formam poças sobre os olhos vidrados daquele condenado.

- Pessoas generosas sabem perder Rogério. Treinaram esse dom. Aprenderam a não sofrer com o extravio por fortalecerem-se na alegria de quem ganha. Se muito, a morte lhes entristece por cercear-lhes o direito de doar. E a morte, a despedida final, respeita isso.

A agulha é torcida e pressionada até raspar contra o fêmur do paciente. Lágrimas transbordam sua cavidade ocular ensopando o travesseiro, ornando aquela indiferente face com todo o desespero que lhe ocorria internamente.

- Mas para pessoas mesquinhas, a morte é cruel. Porque desejar tudo só realça a aflição de tornar-se nada. E este é o seu destino hoje. Você vai se tornar porra nenhuma. E farei com que isso aconteça lenta e lancinantemente, para que você possa degustar cada detalhe da tua estupidez.

A médica saca uma segunda ampola, derramando seu conteúdo na bolsa de soro. A transparência do líquido ganha um suave tom amarelo.

- Você roubou o corpo de Beatriz e, não satisfeito em ter tudo, desejou que ela ficasse com nada.

A morte pinga sua inevitável e paciente despedida. Cada gota rasga-lhe o sistema nervoso em espasmos ilimitados de dor. Meio litro da mais pura agonia, esta é a medida de tempo que lhe restava.

Serena apaga as luzes do quarto, concedendo à Rogério o exclusivo reinado de seu particular inferno. Antes de fechar a porta, sem olhar para trás, abaliza:

- Beatriz era generosa. Sabia doar, sabia morrer. Admiravelmente, seu último desejo foi lhe fazer um convite: “Por favor, pai, morra comigo.”

Dácio Alexandrino