Dialética da empregabilidade

Na última semana de Abril, dois assuntos completamente distintos disputaram espaço e importância na minha mente. Enquanto fazia uma profunda reflexão existencial, também procurava o “fio da meada”, para escrever um pequeno texto sobre perspectiva critica. Esta combinação improvável terminou por proporcionar uma interessante abordagem prática da questão existencial a partir de uma perspectiva crítica.

Passar dos 50 anos é uma condição que invariavelmente leva à uma profunda reflexão. Primeiro, você tem quase certeza de que viveu mais da metade de sua vida; segundo, você percebe que está muito bem física e intelectualmente, diferente do estereótipo que sempre acreditou. Decidi colocar isto a prova reinventando-me: Mestrado, recondicionamento físico e estético estão se desenvolvendo, a empregabilidade parece ser o maior desafio, e tem ocupado boa parte do meu tempo. Quase sempre fui empresário ou profissional independente, atualmente independente até de clientes, o que tem me levado a encarar o novo desafio de buscar um emprego.

A práxis do modelo de empregabilidade

A despeito de ter participado de alguns processos seletivos, minha abordagem da empregabilidade sempre se deu pela ótica do contratante, neste processo as histórias dos candidatos sempre pareceram valer mais do que um belo currículo. Com esta perspectiva iniciei uma jornada, marca pessoal, perfil detalhado no LinkedIn, e um currículo que no modo compacto tinha cinco páginas. Não demorou muito para me perceber totalmente fora do padrão, este processo mudou, e muito, tornando necessário compreender o processo e encontrar o centro da questão. Parodiando Marx, para entender a nova empregabilidade é preciso entender o “produto” pela perspectiva do recrutador.

Hoje, o volume de candidatos por vaga chega facilmente à casa de centenas, quando não milhares; ler ou ouvir suas histórias se tornou impossível, a automatização e impessoalidade nas primeiras fases do processo seletivo parecem ter arrancado a humanidade do indivíduo. Seu currículo é submetido a um sistema ATS, onde as palavras-chave adequadas são mais importantes que descrições bem elaboradas; aliás, é preciso tirar do texto palavras que possam ser interpretadas de forma equivocada pelo algoritmo.

A força de trabalho nunca teve um perfil tão claro de mercadoria. Para Marx, a força de trabalho era a única mercadoria que poderia ser trocada por uma pequena parcela de capital, a remuneração, possibilitando ao proletário adquirir bens e serviços necessários à sua subsistência. Hoje em dia a força de trabalho segue estritas especificações, inúmeras certificações, para praticamente tudo, e até mesmo as habilidades são qualificadas e certificadas, é a mercantilização de todo o processo, não basta ter formações e competências, é preciso comprar suas comprovações.

A cada dia busca-se uma forma de parametrizar o sujeito, de modo a despi-lo de sua individualidade e relativizar sua essência, para assim transforma-lo em um produto passível de comparação, de forma objetiva, por algoritmos. A práxis deste processo leva a identificação de um modelo de empoderamento do algoritmo e anulação do indivíduo, mercantilizando os rótulos e especificações que serão aplicadas a ele enquanto produto a ser adquirido, muitas vezes sem a descrição de valor adicionado.

Paradoxos da inovação

Enquanto a primeira fase do recrutamento é automatizada e impessoal, pela leitura das “especificações” do candidato, o mercado tem demandado profissionais mais inovadores, com mais autonomia e “visão do chefe”. Para enfrentar este paradoxo, um grupo de empresas de tecnologia e diversas universidades americanas criaram a ISSIP (International Society of Service Innovation Professionals) e junto com ela a figura dos profissionais T-shaped, que segundo Dermikan (2015) são profissionais que possuem um profundo conhecimento em uma área, empatia, experiência horizontal transcultural, e de diferentes níveis dentro da estrutura empresarial. Em linhas gerais Dermikan descreve os “shapes” como metáforas para as dimensões de conhecimentos e habilidades, do trabalhador.

Isto não basta para ser um profissional em inovação ou inovador, o T-shaped é no máximo um profissional de boas ideias, digo isto porque inovação é o meu foco profissional, e a perspectiva é muito mais complexa do que I,T ou H shaped. O inovador precisa da habilidade de relacionar seu conhecimento de forma transdisciplinar, e ter a habilidade de trafegar em torno do objeto, transportando-se entre diferentes perspectivas para analisa-lo, inclusive o colocando dentro de diferentes contextos. Por uma perspectiva Kantiniana, o inovador tem a habilidade de trafegar por diferentes estruturas, existentes ou hipotéticas, alterando desta forma a percepção do objeto, inclusive negando-o.

Obsoletos e antiquados

A força de trabalho segue ainda outra lógica do mercado, a do produto novo ou semi-novo, é necessário ter experiência, conhecimento, habilidades, competências certificadas, e ser T-shaped, e ainda assim não ter mais de quarenta anos. Uma força de trabalho modelo 60 ou 70, em alusão à decada de nascimento, com ampla experiência, “multi-shaped”, em perfeito funcionamento, não possui mais valor, é relegada a trabalhos menos importantes. Este é um estereótipo construído por uma mentalidade obsoleta, antiquada e descontextualizada, que descrevo de forma crítica em outro texto. Na prática, o mercado busca no profissional jovem, muitas características de um profissional sênior.

Vivenciamos, desta forma, a verdadeira concepção bancária de Paulo Freire (2014), neste caso o conhecimento, habilidades e competências para inovação são literalmente depositadas na mente do profissional, de forma bem sistemática, para suprir, com grande deficiência, a ausência de experiência que permitiria a construção cognitiva deste saber depositado.

Mate sua essência

Dentre tanta padronização e parametrização, a força de trabalho se vê obrigada a anular sua essência, construindo personas nas redes sociais e na Internet, moldando uma imagem que na maioria das vezes não é sua, é uma hipocrisia moralmente aceita e desejada pelo mercado. Em tempos de vigilância líquida e distribuída, tem se tornado cada vez mais difícil ao indivíduo fingir ser quem ele não é.

Definitivamente desisti de tentar me enquadrar neste formato, não dá para não ser critico, analítico, ver tanta injustiça, ver uma sociedade adoecendo e simplesmente fingir que nada está acontecendo. Teria de ser muito egocêntrico para permanecer alheio ao mundo que me cerca, necessito compreender todo contexto em torno de cada fato ou objeto, simplesmente acreditar nos fatos e dados sem os questionar exaustivamente, sem entender qual sua importância no contexto dado, nos contextos correlatos, no macro contexto, é para mim impossível. Minha natureza é transformadora, teria de matar minha essência para me enquadrar neste modelo. No modelo onde a perspectiva crítica é indesejada, o mercado não quer profissionais questionadores e/ou com posições políticas e ideológicas pronunciadas, sejamos hipócritas.

A síntese

O processo dialético da empregabilidade, nos leva através da práxis a identificar um divisor na força de trabalho. Por um lado a maior parte submete-se a estas premissas, tornando-se um “produto” aceitável, e com grande penetração no mercado, e outros relutam a seguirem esta lógica, configurando possivelmente uma nova linha de produto na força de trabalho, o trabalhador humano, “ousado”, e com grande valor adicionado.

O novo contexto, e a nova antítese

A despeito do contexto nacional, o próprio capitalismo, caminha para o rompimento da lógica capital x trabalho, com o crescimento da robotização física e intelectual através de algoritmos, cada vez mais complexos, permitindo ensinar máquinas (machine learning), e dar a elas a capacidade cognitiva (deep learning) para continuar processando o conhecimento, substituindo de forma veloz a força de trabalho. Já não há emprego para todos, e a situação tende a piorar. Uma das saídas é adotar a renda universal, mantendo assim o regime da troca de bens e serviços por dinheiro, e abstendo da necessidade de trocar a força de trabalho por ele.

Quanto à empregabilidade, neste futuro projetado, provavelmente valorizará o caráter humano, justamente a essência do indivíduo que hoje se quer anular, pois para as atividades mecanizadas e padronizadas teremos os robôs e algoritmos. Este cenário pode levar a uma completa disruptura com o modelo de empregabilidade atual.

Bibliografia

ARAUJO, C. A. Ávila. Teoria crítica da informação no Brasil: a contribuição de Armand Mattelart. [s.l.], v. 3, no. 3, p. 112–119, 2009. DOI: 10.3395/reciis.v3i3.285pt.

DEMIRKAN, H.; SPOHRER, J. T-Shaped Innovators: Identifying the Right Talent to Support Service Innovation. [s.l.], v. 58, no. 5, p. 12–15, 2015. DOI: 10.5437/08956308x5805007.

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. In: . [s.l.]: Editora Paz e Terra, 2014. ISBN: 9788577532285.

MARX, K. A ideologia alemã. In: . [s.l.]: Boitempo Editorial, 2015. ISBN: 9788575591956.