O happening Letrux

Sobre um ano de comemoração do disco “Letrux em Noite de Climão”. Uma resenha do show que aconteceu em São Paulo, no Cine Joia, com Letícia mergulhando intensamente no público e convidando Luedji Luna para flutuar no salão. Nesta sexta-feira 13, a festa é no Circo Voador.

Foto: Carime Elmor

Ao lado do microfone uma mesinha. Dessas que colocamos na sala com um porta-retrato. Ali estava apenas o setlist e um vaso com um buquê vermelho que pode ter dado para si mesma. A entrada plácida, de body preto brilhante decotado e uma saia com transparência e estampa personalizada “Letrux”, marcou os únicos segundos de serenidade após o tom soturno que invadiu sua personagem. Letícia Novaes, formada em artes cênicas, contou certa vez que encara personalidades diferentes em cada show, e na data em que “Letrux em Noite de Climão” comemoraria 1 ano no Cine Joia, SP, ela apareceu fazendo “a sofrida”. Foi pega de surpresa quando o público cantou, antes dela, “Vai render”. Seu microfone, logo no início, não funcionou. A espontaneidade dando espaço para a arte acontecer entre os happenings de uma artista completa em voz, discurso e performance.

Já tinha visto Arthur Braganti (teclado e sintetizador), que coproduziu o primeiro disco solo da Letrux junto à guitarrista Natália Carrera, em um show do Séculos Apaixonados (RJ), ele e seu Roland. Talvez ele não se lembre, mas fui buscá-los na rodoviária quando tocaram em Juiz de Fora, em um episódio divertido e de pouca memória para seu companheiro de teclas e vocais que estava no carona. ¡Un saludo! para o Séculos, sem querer causar um climão. Voltando para Letrux, Arthur usava uma capa brilhante, óculos escuros, e trazia o clima dancing para o show.

O virtuoso Lourenço Vasconcellos se posicionou na ponta do palco triangular, com cabelo moicano, fazia uma dança tribal com as baquetas, em pé, e bem à vontade. Natália bem à frente, elegante com um macacão vermelho, utilizava slides, levantava a guitarra de frente ao amplificador para criar ruídos entre seus riffs e solos. Martha V, vizinha de Letrux, da Tijuca, colaborou na “Que Estrago”, música dedicada à todas as mulheres que ali estavam. No show, além da segunda guitarra, Martha fazia algumas camadas de synths. Letrux pediu ao público, ao apresentar os integrantes de sua banda pelo signo, que prestassem atenção neles e sentissem o mesmo tesão que têm ao olharem para ela. Por fim, Raphael Rebello, que já tem a musicalidade no sobrenome, tocava um baixo semi acústico e completava a orla que se deu naquele antigo espaço. “Ai, acho que estou vendo espíritos do cinema!”, dizia com humor a cantora e compositora, revelando que tudo que aconteceu nesse 1 ano de projeto solo é muito maior do que ela poderia suspeitar.

Foto: Carime Elmor

“Ninguém perguntou por você” foi a segunda do repertório. Para ninguém passar batido na festinha, Letrux começou a gritar: “Quem está aí?”, e prosseguiu citando uma dramaturgia de Shakespeare, que brincava ser seu tatatatatatatatatataravô. “Essa é a primeira frase do Hamlet, vocês sabiam?”. Após um improviso de palavras que me fez lembrar os poemas livres falados de Matilde Campilho, terminou se perguntando: “Quem está aqui?”. Com uma luva preta, apenas na mão direita, segurava o peito na tentativa de encontrar-se consigo mesma.

A segunda faixa do álbum sempre me fez pensar que era uma catarse pós fim de relacionamento, principalmente por dizer: “Já tive tudo com você” e mais uma enumeração de afetos. Mas quando Letícia (Letrux) leu este texto, ela gentilmente me enviou uma errata dizendo que é a descrição de um amor platônico. Sobre quando conhecemos uma pessoa e já escrevemos um romance de volume 1,2 e 3 na cabeça sonhando acordada(o) com tudo.

Em “Puro Disfarce”, música em parceria com Marina Lima, Letícia canta “Se o corpo é meu ou é do carnaval”, e levanta a saia olhando fixamente para suas “partes”. Na metade da próxima estrofe, uma pausa necessária e sábia. Relembra que há aproximadamente 100 dias Marielle Franco foi assassinada e pede para que todos gritem junto à ela: “SOCORRO!”, alertando com olhos arregalados sobre o climão que é viver no Brasil. O público grita com a força de quem vai terminar a noite afônico, e ela engata na letra. Nesse momento, difícil de engolir a própria saliva, ela recitava versos sobre a água estar atingindo pouco a pouco toda extensão de seu corpo, como se descrevesse um afogamento coletivo.

E então a atmosfera de “Coisa Banho de Mar” preenche aquele cenário pré apocalíptico e faz com que Letícia Novaes flutue no salão. Cantando sobre uma rajada de trovão que a joga no chão, ela se deixa levar pela ação das palavras. Na letra, ela cita uma passagem da Bíblia de quando deus transforma uma mulher em estátua por castigo. Se a esposa de Ló, que nem por seu nome era reconhecida, virou um símbolo da desobediência, Letrux quer servir de exemplo justamente para isso. Deboche, sátira e gozação. Acredito que não há uma mulher que vá ao seu show e não saia um pouco mais permissiva consigo mesma. Enquanto cantava, olhava para os lados e brincava com sua própria sombra, gigante nas paredes laterais. É música que fala de mar, de água que lava e permite se ressignificar, até terminar em uma explosão de noise absoluto.

Foto: Carime Elmor

Com a franqueza e sabedoria de quem já amou plenamente, os versos que mais guardo em minha mente são: “até o amor ser bom ele é tão ruim”. Antecipando o momento “ó-concur” de todos deixando o palco solo para Letícia Novaes receber a guitarra de Natália Carrera e dizer estas palavras antes de começar a cantar “5 Years Old”, faixa em inglês que encerra seu disco.

“(…) Há muitas vidas em todas essas. Queria dizer que centro espírita, que ioga, que exercício físico, que literatura, teatro, queria dizer que maconha, queria dizer que todas as drogas, remédio, aborto, escolham seu corpo, sempre! Queria dizer que qualquer medo pode ser vencido através do próprio medo. Eu tô fazendo cocô de estar aqui com vocês. Queria dizer que eu morro de medo de avião, mas que peguei um hoje, queria dizer que eu morro de medo do amor, mas eu amo (…)”

Após uma retomada astrológica, de áries com áries, água e fogo, é a hora de assumir a volta por cima e a retomada do flerte. Martha vai para os sintetizadores e começa a introdução do disco junto à Arthur. Nessa mesma atmosfera, Lourenço faz a introdução de “Hypnotized” utilizando os tambores. Letrux cantava paralisando a cabeça em semblantes de amor-horror-humor. Em seguida, começa uma homenagem à quem ela ressalta que este ano faz 60 anos e é a rainha da cultura, da arte, de coisas importantíssimas. Interpreta “Ray of Light”, da Madonna, uma clara inspiração. “Vou dizer pra ela que vocês curtiram”. Ela encerra as palmas e joga mais uma crítica afiada ao climão equivocado do dia em que o Brasil foi desclassificado da copa na Rússia. “A galera vai voltar e os 20 milhões tão lá. Tá tudo bem”, e finaliza cantando uma canção da Jovem Guarda chamada, “Não creio em mais nada”, de Paulo Sérgio, com letra brega, bela e desiludida.

Letícia dançava imitando celebridade e descia o corpo como serpente, cantando a sequência de seu show: “Não aguento mais olhar para a pele e ver o seu nome tatuado/E saber que o meu virou uma cobra/Sendo que você agora é a própria”. Uma poesia de arrependimento bem humorada, que ganhou um clipe em junho deste ano, totalmente tragicômico, acompanhando a letra de “Além de Cavalos”. Nesse momento, Martha V pirava na meia lua.

Chegava a hora de Luedji Luna se misturar àquele emaranhado sonoro. Letrux a conheceu no projeto “Acorda Amor”. Com vestido metade amarelo, metade bordô, e tranças longas, elas dividem as vozes de “Banho de Folhas”, do disco “Um corpo no mundo” (2017) de Luedji. Além disso, a rapper norte-americana Lauryn Hill foi homenageada pelas duas que confessam sempre terem tido a vontade de cantar “Ex-Factor”, que foi potencializada pelas harmonias vocais de Natália, Arthur e Martha. Já descalça, Letrux divide os vocais da “Que estrago” com a cantora, que se despede do público após uma forte troca de abraço e admiração mútua.

Foto: Carime Elmor

Retoma o espetáculo com “Porque te vas”, em domínio de espanhol, e para aguçar-nos lê Hilda Hilst “Do amor contente e muito descontente — 10”, implorando à todos que se livrem de tudo que cansa. “Descansem anjos meus/Tudo vem a tempo/No seu tempo/Também é bom ser simples/É bom ter nada/Dormir sem desejar/Não ser poeta/Ser mãe/Se não puder ser pai/Tenho pedido a todos que descansem/De tudo o que cansa e mortifica/Mas o homem/Não cansa”. A paisagem sonora de fundo é realçada pelo lindo som de guitarra de Natália Carrera.

“Por favor me vaiem um pouquinho para controle do ego”, ela pede. E ganha. Agora é hora de cantar e se despedir, durante “Flerte Revival”, mostrando o figurino assinado pela Casa de Joana, da Fernanda Kenan, ela arranca a saia e fica de body e meia calça vermelha pedindo para que as pessoas dancem estranho como ela. E no happening final, Letrux aponta para o público sinalizando que vai descer. Se aproxima e se torna um ímã das inúmeras mãozinhas que tentam chegar mais perto, até que Letrux se entrega. Deixa seu corpo ser levado. É carregada pelo público causando arrepios em quem presenciou a cena. Martha encerra deslizando os dedos nas teclas e Letrux é levada de volta pela onda até o cais, que está mais para caos. “Amanheci e agradeço”, publica em sua rede na manhã seguinte.