O QUE É FAMÍLIA PARA VOCÊ

‘Existem, no mundo diferentes famílias’. Grandes, pequenas. Família com pai, mãe e filhos, família com casal e um cachorro, família com pai e filhos, família com mãe e filhos. Família com dois pais ou duas mães, família em que os avós são os pais, família de sangue e família de coração.

E, você, quando pensa em ‘família’, que imagens lhe vêm à cabeça? Pode-se pensar em família como a composição de duas, três ou mais pessoas que se unem em torno de uma mesa e conversam, gargalham, trocam ideias. Ou pessoas que, individualmente, lutam pelo bem-estar comum e que buscam a felicidade do outro ou, ainda, pessoas que e se unem na finalidade de cuidar, ser aporte e amparo umas das outras.

Também pode-se dizer que a família é “um núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantém entre si uma relação solidária”. Essa definição estará novo Dicionário Houaiss.

O dicionário lançou uma campanha e convidou o público para que escolhesse junto o conceito de família. A frase mais curtida na página do Facebook da campanha dizia que família é “um grupo de pessoas que vivem juntas, ou percebem relação social estreita e de confiança entre si, através de vínculo biológico ou afetivo”.

A campanha surgiu em resposta ao Estatuto da Família cujo texto, aprovado na Câmara dos Deputados em outubro do ano passado, reconhece família como por “o núcleo formado a partir da união entre um homem e uma mulher”. Muitas pessoas não se sentiram representadas pelo Estatuto e manifestaram críticas nas redes sociais “Eles são a minha família”; “Nós somos uma família; “Não são vocês que irão nos dizer o que é família”. Frases ‘como essas’ se multiplicaram pelo Facebook após a notícia da aprovação do texto.

Os deputados Glauber Braga e Érika Kokay, contrários ao projeto, argumentaram que texto institucionaliza o preconceito e a discriminação e retira direitos de milhões de brasileiros que não se enquadram nesse conceito de família.

Como a família e as escolas podem falar sobre esse tema com as crianças?

Atenta as novas configurações familiares a escola Estadual Gabriela Mistral decidiu substituir as tradicionais comemorações do DIA DAS MÃES e DIA DOS PAIS pelo dia da família. A diretora Adilza Chagas conta que percebeu que essa mudança refletiu na inclusão das crianças que não participavam das festas, algumas por não terem o pai ou a mãe. Assim, elas passaram a participar acompanhadas das pessoas que são suas referências de família “ Nós escolhemos uma data no calendário e criamos a nossa festa da família. São realizadas ações recreativas, jogos e atividades que privilegiam a coletividade” afirma Chagas. A diretora destaca que a escola sentiu que era o momento de se adaptar a época de mudanças em que vivemos.

As mudanças de paradigmas comportamentais e na forma como a sociedade se organiza traz a necessidade de combater preconceitos e tornar, por meio das crianças, uma sociedade mais responsável com as diferenças.

Foi pensando em debater sobre as novas composições familiares, romper com o preconceito dentro das casas, das famílias e também das escolas que nasceu um projeto que se transformou em uma história infantil. A partir de 2011, quando o Estado brasileiro normatizou que as relações homoafetivas constituem família, e podem oficializar essa união, ‘dizer que isso é “anormal” é uma ofensa preconceituosa. É preciso, desde cedo, dar início a essas reflexões, esse é o recado que a autora do livro Tenho Dois Papais, Bela Bordeaux, quis transmitir.

Bela diz que nunca acreditou em “novas famílias”, para ela o que muda é apenas a conquista e o reconhecimento do direito de ser aceito independentemente da formatação familiar. “Acredito que as famílias são formadas mais por ligações como amor e companheirismo do que ligações sanguíneas e a necessidade de uma formatação tradicional”.

Bela Bordeaux

No ano de 2012, após a recente aprovação da união estável para casais homoafetivos no Brasil, nasceu a ideia do livro Tenho dois papais. “Eu enxerguei na formação de novas famílias a demanda por uma literatura que representasse os filhos dos casais homoafetivos e ensinasse para as outras crianças que mesmo as famílias sendo diferentes todas possuem coisas em comum, como amor e carinho”.

A autora tinha o projeto de um livro e a vontade de transformar o olhar das pessoas sobre estas questões, mas não tinha recursos financeiros suficientes. Sem dinheiro para financiar a publicação, Bela lançou uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, plataforma digital especializada em campanhas de financiamento coletivo.

O site oferece suporte para quem têm projetos com objetivos claros. O Catarse já movimentou 43 milhões de investimentos em ideias e ajudou a financiar 2.553 projetos. A campanha do livro Tenho dois papais foi bem sucedida, superou a meta de R$ 22.450 e arrecadou R$ 30.025, contando com a contribuição de 406 apoiadores. Bela então teve a certeza de que estava no caminho certo, a mobilização pelo tema surtiu efeito, “as pessoas se interessaram pela campanha, o que demonstra que a sociedade estava interessada em discutir “novas famílias” e ensinar seus filhos a respeitarem as diferenças” diz Bela.

Foi ao conhecer iniciativas fora do país que falavam para crianças sobre homoparentalidade que surgiu a ideia da autora em discutir esse tema no Brasil. Bela conta que seu retorno mais gratificante foi quando ela recebeu a foto de um menininho segurando o livro com um lindo texto dos dois papais contando como ele se sentiu representado pela história.

A tentativa de inclusão do livro nas instituições de ensino esbarrou mais uma vez no preconceito, conta Bela. “Infelizmente dependemos do projeto pedagógico de cada escola infantil. Sinto que existe uma vontade muito grande dos professores em mostrarem o Tenho dois papais para seus alunos mas, em contrapartida, há um grupo de pais que ainda sentem medo de tocar no assunto homossexualidade com crianças de três a seis anos”.

Ainda assim, a literatura conseguiu enfrentar resistências e o livro está inserido em algumas escolas públicas de Belo Horizonte, além de uma escola católica da rede privada da capital mineira que está negociando a compra de exemplares.

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