Uma gorda na Disney

Então eu voltei para Disney depois de 9 anos. Não foi uma decisão tão consciente, eu confesso que nem queria ir para os EUA por agora (por causa de dinheiro e escolhas políticas), porém meu primo - que é americano - casou em Miami, toda a minha família foi para a casamento, as coisas foram se encaixando e quando percebi estava com visto, passagem e viagem programada.

Para eu continuar essa história, preciso deixar claro que sou gorda. Muito gorda e engordei muito desde a minha primeira viagem para lá. E por isso, desde o primeiro momento, eu já estava com medo de 2 coisas. A primeira era a viagem longa de avião, que é desconfortável para todo mundo, mas para uma pessoa gorda é pior. Primeiro porque você não consegue se ajeitar na cadeira - você se encaixa e assim fica até chegar no destino. Depois que, eu pelo menos, fico tão preocupada em não atrapalhar (ou tentar atrapalhar o mínimo possível) a pessoa do meu lado que fico tentando me encolher. A viagem até foi ruim, porém esperava que fosse pior.

Meu segundo medo era o de não caber nos brinquedos, nas montanhas russas. E esse é um fato importante sobre mim: Eu adoro montanha russa. Adoro a velocidade, adoro a sensação no estômago de cair, adoro ficar de ponta cabeça.

Então eu cheguei em Orlando. E no primeiro dia fui no Animal Kingdom. Estava com o meu pai, imaginei que estaria cansada depois da longa viagem, é um parque que ficaria menos triste se desse algo errado, enfim várias coisinhas que se juntaram a essa decisão. E foi um parque que me encantou muito. Mesmo. As filas estavam grandinhas, tive dificuldade de lidar com o fastpass no app, rodei mil vezes o mesmo lugar pq não consegui me programar direito, mas no final consegui fazer tudo que queria. Inclusive lá tem uma montanha russa maravilhosa do pé grande que fui 3 vezes. (1 consegui pelo fastpass, depois descobri que tinha a sigles ride — quando vc vai sozinho — e já de noite, na hora do primeiro show, estava sem fila e aproveitei.)

Eu tô ali bem no meio, encaixadinha na cadeira. Quase não deu, machucou um pouco na lateral da bunda, na perna, mas deu e foi muito divertido.

Mas já no Animal Kingdom eu tive o primeiro problema de não caber. Lá tem as corredeiras (Rapid River ou algo assim). É um brinquedo quase normal, com várias versões em vários parques diferentes. Nem tava tão animada para ir, mas tava indo para fazer o check list do parque. E para a minha surpresa o cinto de segurança não fechou. E aqui foi uma coisa meio idiota, porque tipo, era só ter um extensor do cinto — coisa bem simples como se faz no avião. Foi levemente humilhante, principalmente pela forma como o funcionário da Disney me tratou, me falando para sair do brinquedo. Fiquei bem chateada, confesso, mas de certa forma já estava esperando. Foi o único problema de caber que tive nesse dia e achei que meu medo tinha sido em vão.

O 2º dia, fomos no Epcot. Também não tive problemas de não caber. No Soarin tive que mudar de cadeira para ficar na ponta e facilitar fechar o cinto. Alguns brinquedos foram bem desconfortáveis, machucaram meu culote, mas não deixei de fazer nada.

Ai no 3º dia, no parque que na minha primeira visita a Orlando foi o que mais amei, no parque que eu estava mais ansiosa para ir, que deu tudo errado e meu medo se concretizou.

Na Universal é onde estão as melhores montanhas russas, os brinquedos mais adultos e, principalmente, onde está o parque do Harry Potter — que eu não conhecia até então. Eu estava muito ansiosa para isso.

Só para ter noção, eu não programei um dia de compras nos EUA porque não queria perder nenhum parque e não dava tempo. Entre comprar e aproveitar parques, não tenho dúvidas da minha escolha.

Mas apesas de eu amar a Universal, a Universal não ama os gordos (consequentemente não me ama). A única coisa ~boa~ da Universal é que eles colocam as cadeiras dos brinquedos do lado de fora para você experimentar e ver se cabe. E confesso que é bastante humilhante ser julgado por uma cadeira. Por um cinto de segurança que não fecha. Eu só não tive mais crise de ansiedade porque meu pai estava do lado e eu não aguentaria ele me julgando também. Toda a fila que a gente entrava, me dava um nervoso no estômago pensando: “será que eu vou caber?”. E em alguns brinquedos, como o do E.T., eu cabia, mas machucou. Fiquei com um roxo gigante na barriga. E ai eu não aproveitava o brinquedo, porque estava preocupada com o negócio me machucando, me apertando, torcendo para acabar logo.

E claro que a minha maior decepção foi na parte do Harry Potter.

Não me entenda mal. O parque em si está maravilhoso. Me senti no beco diagonal, fiquei apaixonada pelos detalhes, poderia passar o dia ali, só por estar ali. Queria até pegar os livros e sentar para ler lá. Mas o brinquedo do Gringotes, eu não pude ir. E foi o primeiro grande baque. A primeira coisa que eu queria muito e me foi negada. Chorei de tristeza, disfarçadamente. De novo, não precisava de mais julgamento do meu pai. Até porque eu tenho certeza que a errada aqui não sou eu, é a Universal. Ela poderia fazer um carrinho especial. Ela poderia pensar em um alternativa. Mas para quê se preocupar com o gordo. Não querermos gordo aqui. Ninguém quer o gordo por perto.

E assim, para eles terem colocado o acento no lado de fora do brinquedo e o aviso de “é requerido um certo tipo de corpo para andar nesse brinquedo. confira se você possui”, isso significa que eu não sou exceção. E vi várias pessoas gordas no parque provavelmente não couberam também. E mais uma coisa, estamos falando de EUA, um país conhecido por ter pessoas gordas, mas nem lá o mundo é feito para nós.

Depois disso, meus planos de viagem acabaram mudando um pouco. Quando voltei para o 2º parque da Universal com meus irmãos, já fui preparada para não caber. De novo não puder ir no brinquedo de Hogwarts, nem em nenhuma das montanhas russas. A gente tinha a ideia de ir no Bush Garden, mas como sei que lá é muito montanha russa, não quis arriscar.

Depois eu fui nos outros parques da Disney (Hollywood Studios e Magic Kingdom). Mas confesso que estava traumatizada pela experiência na Universal. Nem tentei ir na montanha russa do Rock com medo de não caber. Fui na torre do terror e no brinquedo do Star Wars nervosa com a expectativa de não caber, mesmo com a funcionária da entrada falando que eu cabia sim. No Magic Kingdom, foquei nas paradas e showzinhos — por causa das filas e por medo de não caber. (Tive outros problemas no parque e nem fiquei até o final, mas isso é outra história e não tem a ver com o fato de eu ser gorda).

Eu tenho um certo ódio do mundo por todo o nervoso que passei nas filas, todo o medo de não caber, todas as vezes que não pude ir e muita raiva das vezes que nem tentei por medo de não caber.

E eu quero terminar esse texto deixando uma coisa bem clara: Não sou eu que tenho que me adaptar ao mundo, e sim o mundo que deveria se adaptar a mim. Eu não sou a primeira, e nem fui a última gorda a sofrer nos parques de Orlando. Isso é a gordofobia do mundo.

Termino esse texto com essa foto fofa pq tô afim. (e foi um excelente abraço de carinho) ❤