Pavão

Ou como eu aceitei que não sei voar.


Muitas pessoas me chamam de Pavão. Eu aceito o apelido, e concordo que me define bem, pois eu adoro atenção, e adoro mostrar meus talentos (que não, não incluem minha bunda definida e linda. Ainda) por aí. Mas estava lavando a louça — a melhor atividade para liberar a cabeça — e percebi o quão parecido com o pavão eu sou, pois assim como ele, eu não posso voar.

Sim, nenhum homem pode voar, caro leitor filho da mãe. Bom trabalho em notar isso, cara, agora senta aí e leia o texto sem comentários engraçados, ok? Obrigado. Enfim, o pavão é uma ave que não voa, pois tem aquele leque gigante no lugar de um rabo. O máximo que ele faz é dar uns pulinhos glamurosos. Mas isso é uma escolha dele, preferiu se mostrar a voar, trocando a capacidade de mudar de lugar pela beleza. Não o julgo, pois não acho que esteja errado: Ter aqueles adereços todos e voar são dois talentos, e julgando que eles estão aí até hoje, não foi uma troca ruim.

Digo que sou igual ao pavão, pois eu também fiz essa troca. Sabe, escolhi o desenho. Quando se chama Pintor, você nem pensa duas vezes, com um nome desses, ou tu pinta/desenha, ou vira vereador do interior. Mas ao me especializar, ao me dedicar a esse tipo de arte, eu perdi a habilidade de voar, de mudar de área. Estou preso a minha escolha, posso até tentar fazer outra coisa, assim como o pavão pode ir andando até outra floresta, mas o caminho é árduo e desajeitado, perde-se a beleza da criatura, de uma ave majestosa passa a um pato feio de rabo comprido.

Esse é meu dilema. Será que fiz a escolha certa? Faz muito, mas muito tempo que realmente desenho, e escrever pra mim é muito mais natural do que desenhar. Porém, é só me dar um lápis e uma folha, e me perco a criar dinossauros e piratas, não poesias ou crônicas. É um conflito interno onde não vejo fim. Sou um pavão que cisma em exibir seu sapateado, e não suas penas. É estranho, me sinto deslocado, e não é incomum olharem para meus textos e perguntarem “Tá, mas e os desenhos?”.

E os desenhos, meu amigo? Me pergunto a mesma coisa. Mas calma, pavão não vive sem suas penas. E se tem algo que eu sei sobre eles é que mais se mostram quando estão perto de suas pavoas.

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