A plenitude de quem dorme primeiro

dois anos atrás

Eu gostava da sensação dos pelos daquele antebraço no meu bigode. Eu esfregava meu rosto suavemente, de um lado para o outro, no antebraço imóvel de quem dormia. Esse ato não seria estranho, pensei, se os dois corpos tivessem mais intimidade, mas esse não é o caso. Deitado pela primeira vez ali, não pude deixar de aproveitar: os pelinhos do antebraço eram desalinhados, desordenados, grossos e escuros, numa pele tão clara como uma tela em branco. Juntos, espessos, eles pintavam um mar tempestuoso e ao mesmo tempo estático. Uma obra de arte, composta por contrastes que certamente só eu vi, em fricção prazerosa com a região da minha boca. Pelo menos ele dormia e não percebia o roçar estranho dos meus bigodes num antebraço não íntimo.

Me mexi. Só um pouco, porque o corpo dele impediu algo a mais. De bruços, mãos acima da linha dos ombros, eu sentia um respirar abafado na minha nuca. Ele, à vontade em seu próprio sofá da sala, me confundiu com almofadas. Eu, as almofadas, era conforto para peitoral, braços e pernas. Grande e forte — porém macio — era o corpo que abafava a minha solidão e, como em osmose, passava momentânea segurança. Eu me remexia. Ele dormia.

É que sempre dormi depois que os outros. Eu sempre senti o peso dormente de alguém confortável em cima de uma alma inquieta mas momentaneamente segura: a minha, embaixo de um desconhecido. Dormir depois é ter uma oportunidade infeliz, porém rara e empolgante, de observar os felizes que dormem antes. E eu observei. Um respirar lento e profundo. Um pequeno chiado alérgico no nariz. O silêncio calado pela madrugada fresca de um agosto atípico. (Inverno, mas as janelas ficaram abertas. Por elas, além da brisa, entrava somente o som do canto de quero-queros assustados por um gato serelepe num gramado próximo do apartamento.) Dei uma risada quieta, com pelos de antebraço em atrito com meu bigode. Esse gato deve se sentir inquieto como eu, pensei, pouco antes de me esticar no sofá confortável — o cobertor um corpo quente — e dormir.

hoje

Hoje ele fez o café, colocou numa xícara para mim, deixou em cima da mesa da sala e foi trabalhar quando eu ainda dormia. Foi nesse dia, lembrei, que acordei debaixo dele num sofá desconhecido. Esse mesmo, aqui, sobre o qual tomo café agora e que faz parte da minha rotina.

Na mesa, um bilhete: “ontem, você dormiu primeiro”.

Aquietando a insegurança, abafando a solidão, ele me parabenizou pelo aniversário de dois anos. Eu era pleno.

Cocei o bigode. Já sentia saudade.

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