Buscando meu reflexo

Carla Abreu
Nov 6 · 2 min read

O texto abaixo tem como inspiração direta e indireta a música “Cecília”, de ANAVITÓRIA.

Eu sempre deixo muito claro. Eu escrevo sobre coisas, pessoas, momentos. Passado, presente, futuro. Eu escrevo pra mim, sobre tudo. Esse texto é sobre você. Sobre o passado e sobre nós.

Minha relação com a música é forte demais. Pretendo até falar disso em outro momento. Resumindo, eu ligo tudo à música. A nossa relação à algumas canções de ANAVITÓRIA. No Começo, “Tua” e “Cor de Marte”, depois “Agora Eu Quero Ir” e, lembrando do fim, “Cecília”.

Teu olho despencou de mim
Não reconheço a tua voz
Não sei mais te chamar de amor
Não ouvirão falar de nós

Eu até já escrevi antes sobre você. Logo que acabou, há bastante tempo atrás, eu era sempre esperançosa. Eu achava que sentimento bastava, e que o destino ia manter a gente. Mas eu esqueci, como a Ana fala na música, que “certeza não existe, não”.

Ausência quer me sufocar
Saudade é privilégio teu
E eu canto pra aliviar
O pranto que ameaça

Difícil é ver que tu não há
Em canto algum eu posso ver
Nem telhado, nem sala de estar
Rodei tudo, não achei você

Eu sentia a sua ausência demais, cantava muito sobre a gente. Eu te procurava em tudo quanto é lugar. Mas cê tava só dentro de mim. E como eu demorei pra te tirar de lá, viu?

Em algum momento eu parei de te procurar. Foi muito libertador. Eu parei de procurar culpado. Eu parei de me culpar. Eu vi que a amarra do sentimento não é necessariamente o suficiente.

Algo marcante — na minha concepção — sobre mim, é que, eu não esqueço as coisas. Elas apenas deixam de ser dolorosas pra mim. Eu lembro de cada momento ao seu lado, do motivo das músicas. A diferença é que antes eu sentia os motivos, agora só lembro. Eu descobri porque cessou, e é só porque as coisas cessam.

Parece que o tempo todo
A gente nem percebeu
Que aqui não dava pé, não
Que tua amarra no meu peito não se deu
Te vi escapar das minhas mãos
Eu te busquei, mas
Não vi teu rosto não
Eu te busquei, mas
Não vi teu rosto
Não

Quando eu vi que não dava pé, que tua amarra no meu peito — e a minha no teu — não tinha se dado, eu tava preparada pra te ver escapar das minhas mãos.

Eu parei de te buscar. Eu não precisava ver teu rosto. Eu precisava ver o meu. Eu olhei pro espelho e comecei a me buscar. Depois de tanto tempo buscando só você, ainda é difícil ver meu próprio rosto. Mas, a cada dia que passa, a imagem no reflexo fica mais nítida.

Carla Abreu

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