To orquestrando uma mini obra em um espaço estilo escritório. É absolutamente uma obra pequena, pois só envolve instalar central de ar condicionado, fechar o buraco que sinaliza que ali existiu um ar condicionado retrô – daqueles que gastam uma fábula de energia – e pintar as paredes para esconder o passado.

É tão pequena que vai durar só dois dias. Indolor se comparado ao verdadeiro caos que a maioria das obras causam.

A equipe foi contratada por uma única pessoa. Daquelas que dizem resolver tudo – e resolvem mesmo: um senhor que ficou responsável pela instalação da central de ar e que chamou todos os outros (um gesseiro e mais dois pintores).

Um dos pintores chegou bem insatisfeito com o dia e se mostrou o tempo inteiro incomodado com qualquer coisa. Fiquei dividida entre meu lado humano que sinalizava “releva, ele pode tá tendo um dia ruim e deve ter mil problemas à mais do que você” e meu lado “foda-se, ele pensa que tá me fazendo um favor?”.

Ele precisava de uma escada. Eu não tinha a escada. Nem fui eu que contratei esse senhor, só queria instalar o ar e não tenho escada.

Então ele saiu para procurar não sei por onde e meia hora depois voltou com a escada a tira colo dizendo “olha, eu arrumei uma, é do zelador aqui do prédio e ele quer o da merenda por ter emprestado viu”.

A escada tá caindo aos pedaços, e ainda que fosse nova, quem é que empresta uma escada – no seu ambiente de trabalho, e pede em troca “o da merenda”?

Dia desses fiquei constrangida com algo nessa linha. Comprei alguns móveis em um leilão, sempre ajudada por um rapaz que se dizia um “faz tudo” da empresa – mas fazia bem mais que isso hehe – e desde a compra, à ajuda com alguns contatos de serviços, bate papo animado e cortês, até carregar uns negócios pesados pra dentro do meu carro e fazê-los caber num espaço que parecia impossível, ele fez.

Achei o cara muito legal.

Ao final, agradeci a ajuda e ofereci uma gorjeta. Já fiz aquilo um pouco constrangida – mas achei que seria de bom tom fazer. Fiquei mais constrangida ainda quando ele recusou “não, minha senhora, por favor não, não quero mesmo, mas agradeço”.

Ele estava fazendo algo que naturalmente faria – e não há preço por isso. É gentileza. É orgânico, ele faria aquilo de qualquer maneira, não tá no contrato de trabalho dele e também não há preço a ser colocado naquilo. Ele faria à troco de um gentil “muito obrigada pela ajuda”. E fez.

No momento que ofereci posso ter me tornado a pessoa que acha normal dar o da merenda, por qualquer coisa, à toa. Ou então apenas alguém que toca a vida seguindo rituais, dos quais não compactua, buscando não errar.

E buscando não deixar o rapaz “faz tudo” à expectativa de uma remuneração, que ele não queria, eu fui lá e ofereci. Burlei a minha regra pra seguir um ritual que realmente não faz sentido pra mim, mas queria diminuir as chances de errar.

Errei de toda maneira quando ele se mostrou surpreso com a oferta que fiz e a rechaçou veemente.

Segui o baile e o guardei na memória.

Agora to aqui um tanto incomodada por estar assistindo, ao vivaço, uma escada sendo usada por 20 minutos em troca do “da merenda”. Como esse contrato foi fechado na hora que a escada passou das mãos do zelador do prédio para as mãos do pintor – me sinto na obrigação de pagar.

Logo eu que ando avisando há uns anos que não sou obrigada a nada hehe, me pego por vezes cheia das obrigações e protocolos engessados numa cabecinha que se cobra o tempo todo para não errar.

Coisas simples da vida. Do trivial também se tiram umas lições.

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