As narrativas juvenis de Stranger Things

Ontem terminei de assistir à série mais falada dos últimos dias: Stranger Things, da Netflix. Gostei bastante, apesar de o gênero terror/thriller/suspense de roer as unhas estar bem longe de ser um favorito pessoal.

AVISO DE SPOILERS: não prossiga com a leitura caso não tenha assistido à série e se importe com spoilers.

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É inegável que a série homenageia (copia? eu diria homenageia mesmo) clássicos dos anos 1980, como E.T., Goonies, Alien, Tubarão, Poltergeist, O Enigma de Outro Mundo, vários livros do Stephen King e mesmo, aparentemente, o perfil de personagens de filmes da época, com os nerds excluídos, os populares que enchem o saco deles, a boa moça estudiosa, etc. O que me chamou a atenção, no entanto, foi em que a narrativa difere desses clássicos. E é sobre isso que vou falar aqui.

Há duas narrativas juvenis em Stranger Things: o grupo dos pré-adolescentes e o grupo dos adolescentes. São dois núcleos que seguem em paralelo até quase o fim da série, quando enfim tudo se conecta.

No grupo dos pré-adolescentes, temos quatro amigos — Mike, Lucas, Dustin e Will — que são a representação clássica do nerd americano: jogam RPG, falam palavras difíceis, gostam de tecnologia e ciências. A história começa quando Will some e, pouco depois, aparece uma menina estranha, de cabeça raspada: Eleven. Com a ajuda dos poderes dela, Mike e seus amigos vão tentar encontrar Will.

O grupo dos adolescentes parece seguir um caminho que nada tem a ver com o sumiço de Will. Nancy, a irmã mais velha de Mike, é a garota certinha que chama a atenção de Steve, o rapaz popular da escola. Sua amiga Barbara não se integra ao novo grupo, mas jamais deixa Nancy. Temos, ainda, Jonathan, o esquisitão da escola, irmão de Will: ao mesmo tempo que ele sofre com o desaparecimento do irmão, tem de lidar com o aparente surto da mãe, que acredita estar em contato com o filho mais novo por meio da energia elétrica.

A dinâmica dos grupos não tem nada de original — inclusive, pode-se criticar que ela replica um padrão já bastante desgastado. O que chama a atenção é a atuação efetiva desses grupos em relação ao mistério em questão.

Dustin, Lucas e Mike. Faltou a Eleven.

Enquanto nas narrativas das décadas de 1980–1990 era comum que grupos de pré-adolescentes deliberadamente se envolvessem em situações de perigo extremo, as crianças lideradas por Mike não se colocam em risco efetivo. A investigação deles sempre segue uma linha mais adequada para a idade — não por “censura” ou qualquer coisa do tipo, mas porque faz sentido! O raciocínio deles segue a lógica de garotos de 10, 11 anos, em que a fantasia se entrelaça com a realidade. Eles chegam a enfrentar perigos — por exemplo, no último episódio, armas são apontadas para eles —, porém, é uma consequência claramente extrema da situação absurda em que eles se encontram, e é apresentada como tal.

O trio de meninos mantém a estrutura de personagens ego, id e superego — tão conhecido e usado nas mais variadas histórias, como em Harry Potter —, mas há uma variação nos papeis: em dado momento, Lucas e Dustin trocam de “funções”, sem deixar de serem quem são. Essa mudança é interessante e vem a calhar, já que não há ninguém no mundo que seja sempre igual, que não tenha rompantes de espontaneidade ou de seriedade.

Jonathan, Nancy e Steve, no episódio final.

No grupo de adolescentes também há esses detalhes que fazem o grupo diferir de como seria numa narrativa dos anos 1980. Nancy parece ser a garota que, tendo passado a vida enfiada nos livros, se deslumbra com a atenção do rapaz mais popular da escola. Ao contrário, porém, ela sabe muito bem o que quer: ela quer o relacionamento com Steve (o que o final da série só vem reforçar), ela quer encontrar Barbara, cujo desaparecimento é, em parte, culpa da desatenção dela para com a amiga. Ela quer ser justa com Jonathan, que todos tratam com desprezo.

Steve, por sua vez, tem seu próprio arco narrativo. Se no início parece só estar interessado em tirar a virgindade de Nancy, logo fica claro que ele gosta de verdade dela. O desenvolvimento da paixão dele é apresentada em detalhes ao longo dos episódios, culminando no ataque de ciúmes e no arrependimento das ações decorrentes disso, para a colaboração no plano de Nancy e Jonathan para capturar o monstro.

Jonathan é o esquisitão que, em qualquer outra narrativa, seria um personagem incapaz de formular frases e dialogar com outras pessoas. Mas há uma quebra de expectativa e ele consegue fazer isso. Porque as pessoas (salvo raras exceções), mesmo as tímidas e excluídas, conseguem responder perguntas. Elas são seres sociais que, apesar das aparências, estão integradas a um grupo — no caso a escola. Jonathan, mesmo sendo o esquisitão, é uma pessoa e é retratado como tal.

A atuação dos jovens no mistério, assim como no caso das crianças, segue uma lógica. Jonathan e Nancy se aproximam e começam a investigar por conta. Ao contrário das crianças, eles se colocam em situações bem mais perigosas e complicadas — o que também faz sentido, pois é característica dos jovens se arriscarem, ultrapassarem limites, buscarem independência em suas ações.

A parte mais curiosa, talvez, é como a participação de todos os adolescentes se dá em paralelo à investigação que de fato está acontecendo. É importante notar que quem se coloca em risco oficial é o xerife: é ele quem invade as instalações ultraprotegidas do experimento onde Eleven vivia, e não Mike e seus amigos. Vale lembrar que os meninos chegam a seguir até lá, mas são impedidos por Eleven, que têm consciência do tamanho do risco que correriam. Lucas depois se aproxima das instalações, mas só a ponto de ver a extensão da grade. Chegada a hora de adentrar o portal para procurar por Will, é a mãe dele e o xerife, dois adultos, que fazem isso. Nesse meio-tempo, Mike e seus amigos estão escondendo Eleven na escola, enquanto Jonathan e Nancy resolveram efetivar o plano de captura do monstro, que acontece na casa de Jonathan, e não no Mundo Invertido. A participação de Steve nesse momento também é muito bacana, pois evidencia os sentimentos e a personalidade dele.

Mesmo quando a narrativa dos grupos chega a seus extremos, são momentos e comportamentos que fazem sentido para a idade dos personagens e para a história de terror na qual estão inseridos.

Essas atuações dos pré-adolescentes e dos adolescentes, ajustadas à realidade (mesmo que tocada pela fantasia), são, sem dúvida, uma das coisas de que mais gostei em Stranger Things.

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