Posso te dar um conselho?

Vá ao cinema assistir “Como nossos pais”.

Filmão.

Você precisa conhecer a Rosa e reconhecê-la em mim, em você, na sua mãe ou na sua avó.

Esse é um filme sobre mulheres. Mas, sobretudo, é um filme que aborda a relação machismo-família com uma veracidade e delicadeza ímpares.

É muito fácil se inserir na história. Não disseram que a arte imita a vida? Esse é um filme sobre a vida — a minha e a sua.

O filme, basicamente, é sobre a Rosa, uma mulher de 38 anos, casada, mãe de duas filhas, totalmente ocupada e comprometida a cumprir a incrível missão que é cuidar da casa, dos filhos, do relacionamento, do emprego e de si. Tudo ao mesmo tempo. UFA.

Não demorou muito para eu me sentir completamente imersa naquele universo e, por vezes, reconhecer situações corriqueiras no dia a dia e na casa de qualquer pessoa. Aliás, não fui a única. Em vários momentos a plateia mostrou se identificar, gargalhando, com aquelas cenas que, por ora, pareceram engraçadas. Eu ri.

Sim, eu ri quando o Dado (marido da Rosa), disse que ela tinha que saber abdicar de seus sonhos, como ele abdicou dos dele — aquela pelada com os amigos, sabe?

Eu também achei engraçado quando o Dado não quis acordar para levar as crianças para escola e fez birra, como uma.

Mas, por pura contradição, eu chorei quando vi a Rosa deixando seus sonhos e desejos para trás, por falta de apoio.

Me emocionei quando a Rosa se viu sozinha, sabendo que a mãe está doente, e se agarrou à uma história infantil para encontrar forças para continuar.

Também fiquei com um nó na garganta quando vi a Rosa debruçada sobre a mesa da cozinha, com o leite derramando no fogão, enquanto discutia com a filha, e o marido dormia até tarde.

Assim como a vida, o filme te faz rir e chorar, em plano sequência. Os sentimentos se misturam.

Me pegar enxugando lágrimas com um aperto no peito, fez eu me sentir mal por ter visto graça em situações tão machistas que só faziam a Rosa se sentir sozinha, cansada e desamparada. Logo eu, mulher e feminista, rindo de machismo?

Voltei pra casa pensando em tudo isso e demorou para eu entender, mas finalmente entendi.

Eu sou a Rosa, minha mãe é a Rosa e minha vó também foi. Todas somos Rosas. O problema é que a gente não vê ou prefere não ver. Tá tudo aí, na nossa cara, mas a gente prefere varrer tudo para debaixo do tapete para não encarar a realidade.

Somos cobradas, o tempo todo, a sermos super-mulheres. Precisamos dar conta de tudo e de todos. Temos que cuidar da família, da casa, dos filhos, da comida, da louça, da roupa, do cachorro, do emprego, do relacionamento, do sexo, da carreira, da viagem, e, se sobrar algum tempo, de nós. Claro, se sobrar tempo, se não, deixa pra lá.

Abrimos mão de nós mesmas, do nosso bem-estar, dos nossos sonhos, vontades e realizações para sermos super-mulheres, não é? Trabalhamos 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Mas sem remuneração, tá? Somos (mal) remuneradas — quando somos — por ¼ dessa carga horária insana.

Maluco isso, né?

Espere só até eu te dizer que essas tarefas e jobs extras que nos são (naturalmente) atribuídos, são válidos apenas para nós, mulheres. Aos homens, cabe cumprir a carga horária diária de 8 horas e ter um sono tranquilo para acordar bem e descansado no dia seguinte.

Eu sei, parece bizarro eu falando dessa forma. E já prevejo homens revoltados, gritando aos ventos o quão injusta estou sendo, por lavarem uma louça ou passarem uma vassoura em casa de vez em quando. Não, vocês não são diferentes. E quando realmente dividem integralmente as tarefas de casa e cumprem seu papel de pai, como uma mãe o faz, vocês são EXCEÇÃO.

Essa é a merda. A gente trata os homens da nossa vida com humor e compreensão — assim como a gente trata o bebê que chora, sabe? A sociedade vê com humor o homem omisso e com compreensão o pai ausente. Arranjamos desculpas para os homens, enquanto sacrificamos as mulheres. E eu me refiro às nossas mulheres. À minha mãe, por exemplo, que se transforma em mil para cuidar de mim, do meu irmão, da nossa casa e do nosso bem-estar. Isso tá errado.

Jogando limpo, a realidade é que ser uma super-mulher não é fácil e nem possível. Nós não somos super-mulheres e nem deveríamos ser cobradas a exercer esse papel. A gente tem que parar com essa mania de exaltar mulheres que se desdobram em 2, 3, 10 para darem conta de tudo. Precisamos abandonar essa lenda e extinguir esse modelo que nos foi empurrado goela abaixo.

Que tal a gente começar a valorizar a Rosa, a Mari, a Venina, a Silvana, a Albina e a Yole? Mulheres que não são perfeitas e nem se propõem a isso. São mulheres normais, de carne e osso, que fazem o que podem, mas nem sempre acertam, nem sempre dão conta. São mulheres que precisam da gente, de você, homem, marido, pai, companheiro.

O mundo está mudando e não cabe mais essa cobrança e essa pressão em cima de nós. Nós somos outras — imperfeitas, e tá tudo bem, sabe?

Eu não tenho a pretensão de ser uma super-mulher. Quero ser eu, cheia de defeitos, dúvidas e imperfeições. Quero poder dividir a carga que é criar um filho, cuidar de uma casa, lidar com meus problemas e minhas ansiedades com alguém que esteja preparado e consciente de que eu não estou aqui para servir. Eu estou aqui pra somar. Sou da geração da parceria.

“Como nossos pais” é importante, necessário e urgente. É um filme que todos deveriam ver e experimentar enxergar uma situação “tão normal” por outro ângulo, com outros olhos e com muito mais empatia pelas mulheres da nossa vida.

“Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando
Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem”

Que venha um futuro novo, de equidade. Que a gente tenha, como prioridade, a missão de sermos a mulher da nossa própria vida.

E obrigada por isso, Laís Bodanzky.