Água

Sou água no cano fluindo
em busca do viço do rio
sonhando com os cachos do mar
Envolvo-me em cantos, sereia,
mareio em tristezas e glórias
zarpando pra longe da linha
que à terra me aprisiona

sou, pois, velejante
rota dos lençóis freáticos
fenda no fundo das águas
força que irrompe brutal

pois que tudo o que é líquido
porta o terrível destino
de acariciar as margens
pra espalhar sentimentos
deixando seus tantos rastros
fecundos e destrutivos

é doce
tal e qual o sal das lágrimas:
paradoxo de ser
como uma risada, lúgubre
feito um pranto, radiante

é água
reagente do veneno
matéria-prima da cura

Carla Carrion