Dançarinos da Transformação
Não. Não nos submetamos
à adoração incondicional
a qualquer ser, coisa ou ideia
menos ainda a nós mesmos,
de falhas compostos
e de vaidades tomados.
Quando não nos submetemos
- tolos -
à rigidez de um eu-vedado
ganhamos a vasta possibilidade
de nos tornarmos mundo
e folha
e vendaval:
pois que a arte da grandeza
está em apequenar-se
não no sentido humilhante
das coisas tristesmagadas
mas na miudeza sem medida
daquilo que flui:
é gota d´água e fio de luar
princípio de orgasmo e movimentos lentos
os olhos fundos de todas as nossas mães
cravados em nossos próprios olhos
fundos de saudade:
um pertencer à humanidade
um perdoar-se pelo que de humano
nos torna vãos:
poeira de nossos nadas
visto que não são eternas
nem a penitência nem a danação,
ergamo-nos, pois, e abramos os braços
o mundo não precisa de mártires de eterna culpa
mas de dançarinos da transformação
Carla Carrion