Fim do Mundo

O que faria, então,
se você pudesse ser
sem o risco horrificante
do silenciamento eterno?

Se pudesse ser você
rasgando o mais fino verbo
sobre a verdade impossível
da vida em ríspidas cores?

Poderia permitir
que o putrefato segredo
dos horrores deste mundo
se transformasse em canção?

Cantaria seus hinos
recheados de protestos
arrastando multidões 
para entoar a verdade
daquilo que não se diz?

Se pudesse, o que faria?
Se nada tivesse a perder?
Se tudo estivesse perdido?
A quem você salvaria
quantas palavras dirias?

Se o mundo fosse acabar
que correntes romperia?
Quais evidências, certezas?
Qual lucidez inventada
não mais sentido teria?

Triunfaria a loucura
de ânsias tornada forte
e o avesso do mundo
diria em seus sons silentes
do que não se pode saber:

delírio
infância
mistério:
a voz no escuro
das ruas
dos corpos silenciados
dos proibidos amores
o grito dos pequeninos
e, das mulheres, a fúria:

que voz a vida teria
se o mundo fosse findar?

Carla Carrion