Sobre o caso Feliciano

Sobre a mulher que foi ASSEDIADA SEXUALMENTE E AMEAÇADA DE ESTUPRO* pelo Feliciano: é preciso que não deixemos que sua voz morra. Não sabemos o que a levou a desmentir. Não cabe julgá-la. Não sabemos o tamanho de seu medo, do amor pela sua igreja, da pressão que sofreu. Não sabemos mensurar o modo como essas coisas se misturam e se confundem. A violência que ela sofreu está se repetindo a cada vez que a tal instituição que se diz cristã encontra formas de proteger seu agressor.

De um lado, a força de um homem público, com poder político e financeiro, com voz dentro de uma igreja e de um partido. Do outro, está ela. E estamos nós. Que estamos sempre no risco de ser desacreditadas. Porque nos vestimos de modo tal. Porque sorrimos e conversamos demais (“sua puta!”). Porque somos arrogantes e metidas e não damos assunto (“sua puta!”). Porque uma vez saímos com um homem casado. Porque uma vez, casadas, saímos com outro homem. Porque fazemos sexo. Porque somos virgens. Porque dizemos sim. Porque dizemos não. Porque somos belas e não era possível que ele se controlasse. Porque somos feias e deveríamos agradecer. Porque demos abertura. Porque parecia que queríamos. Porque bebemos demais naquela ocasião. Porque na verdade “não foi bem assim”. Porque “vão acreditar em mim ou em você?”

“Porque ele é um homem de Deus que inclusive defende penas mais rígidas para estupradores. Ele não faria algo assim, Deus me livre!”.

Porque Deus é para quem, afinal?

*Eu havia escrito ESTUPRADA, mas atualizei após leituras mais aprofundadas do caso (que envolve mais pessoas do partido, além do Feliciano). Não que isso diminua a gravidade, mas corrijo em respeito ao relato dela.