Há dois anos eu fiz um post aqui no Medium falando da minha experiência de amamentar. Há um ano, eu prometi fazer um post falando sobre a experiência de amamentar uma toddler. Não fiz. Fica para a próxima. Hoje, por causa da Semana Mundial da Amamentação, resolvi fazer um post falando sobre o desmame da Mari. Um processo que aconteceu há três meses e eu ainda não falei a respeito. Porque uma das coisas que eu sentia falta, quando contemplava o desmame, era de relatos de desmame.

Como eu contei no primeiro post, o começo da amamentação da Mari não foi fácil. Não foi a história mais difícil, mas foi sofrido. Depois do terceiro mês, tudo melhorou, e tirando uma ou outra perturbação, eu não senti vontade de desmamar até os dois anos. Entre um ano e meio e dois anos, parei de amamentar fora de casa, em seguida cortamos a livre demanda e, logo, amamentar passou a ser um ritual pré-sono. Uma vez cumprida a meta de amamentar seguindo a recomendação das evidências, eu comecei a contemplar o momento de desmamar. Ao mesmo tempo, desmamar uma criança que já falava, pedia o que queria e avisava quando estava triste me causava um receio imenso. Como colocar esse limite na relação de forma gentil e amorosa?

Ao contrário do que eu vejo muitas pessoas falando, aqui não houve a mamada da despedida, nem aviso prévio. Há algum tempo eu vinha conversando com ela sobre o fato de ela já ser uma "menina grande", e o tanto de coisas que ela fazia. Junto com isso, o fato de alguns dias que ela não mamou porque eu não estava em casa quando ela dormiu. Até que rolou uma conversa com uma amiga contando que havia desmamado o filho de idade próxima à Mari, porque não estava conseguindo por limites nas mamadas da madrugada e ela estava ficando muito cansada. E que descobriu que na relação com o filho, limites tem que ser claros, não maleáveis. Aquilo ressoou em mim. Porque desmamar, afinal, é colocar um limite na relação. Aqui você passava, não passará mais. E a vontade de desmamar começou a aumentar.

O desmame em si foi rápido. Um dia, sem pensar que seria aquele dia, falei para ela que "meninas grandes não mamam" e que ela não mamaria mais. Não teve afastamento, conversa de acabou, de estou doente, meses se despedindo, nada disso. O discurso foi "você está grande, mamãe está cansada de amamentar e você pode comer, dormir e se relacionar comigo de outras formas" (claro que não com essas palavras, ela está grande para um bebê, mas ela tinha 2 anos e 7 meses na ocasião). E fiquei aguardando a hora de dormir. Quando o sono bateu, o pedido veio. E aí eu tive que ser continente.

Ser continente.

O desmame me ensinou a ser continente para a minha filha como nenhuma outra passagem ensinou. Aceitar para mim o choro, a tristeza e a frustração que eu, euzinha, mais ninguém, estava colocando para ela. Porque era exatamente isso. Aquele sofrimento dela, genuíno, o desejo não realizado, não era realizado porque eu não queria. E essa talvez foi a maior aprendizagem do processo todo. Aceitar que nem sempre eu vou poder realizar o desejo dela e que o meu desejo é tão importante quanto o dela. E que eu posso estar com ela fazendo o que eu acho certo, mesmo que isso cause incômodo. Eu devo fazer isso, inclusive.

Foram alguns dias — não lembro quantos, menos de uma semana com certeza — bancando o meu desejo e a frustração do desejo dela. Ao longo desses dias, nossa relação mudou. A frustração dela deu lugar a uma relação bonita. O ritual do sono, que era uma mamada muitas vezes sem presença, passou a ser um livro. Dois livros. Três livros. Três livros e uma música. Três livros e duas músicas. E por aí vai… A exigência de presença também aumentou. E a relação foi ficando cada vez mais rica de trocas.

A primeira virose pós-desmame veio com um caminhão de culpas, mas consegui evitar a recaída. Até hoje, três meses depois, quando ela reluta para dormir, ou entra em crises que parecem que não vão acabar, eu coloco a mão no cós da blusa. Mas ela nunca mais pediu. Fala que mamava quando era pequenininha e segue o jogo. Estamos bem e eu definitivamente deixei de ter um bebê para ter uma criança.

O desmame para mim foi o prego que faltava no puerpério. Muitas coisas mudaram na minha relação com o meu corpo e com a minha maternidade após o desmame. O desmame foi um sinal dessa mudança. Um sinal de que eu estava uma mãe muito mais tranquila nas escolhas que eu fiz.

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