Se você gosta do samba, vai ter que balançar

Porque tão importante quanto conhecer o próprio desejo é respeitá-lo.

Um tempo atrás eu assisti esse curta. Nem sei como ele chegou, mas falou muito comigo. Eu me sentia, naquele momento, dando o maior salto de coragem da minha vida. Pulando de um trampolim de dez metros sem ter a menor idéia do tipo de piscina que eu encontraria lá embaixo. Eu postei no facebook, falando de coragem, e um amigo respondeu algo parecido com o que eu coloquei no subtítulo: mais importante que pular é conhecer e respeitar o próprio desejo.

Alguns desejos são fáceis de serem entendidos e respeitados. Quanto maior for a rede de relações estabelecidas com alguma coisa, mais complexo é pesar o que a gente quer fazer com ela.

(Escrevendo agora, lembrei desse texto da Ana Suy sobre o Édipo. Eu nem sou psicanalista, mas vão lá, leiam e depois voltem aqui.)

Tem um viço na pele que só existe quando a gente prioriza o próprio desejo em detrimento do desejo alheio (e por isso é importante a gente conseguir manter essa dinâmica de aproximação-separação dos outros). Uma vida boa é uma vida que traz coisas boas. E a gente só consegue saber quais elas são, as vezes, quando para e limpa essas redes de significado(ninguém disse que esse processo ia ser fácil).

Às vezes a gente precisa ensaiar um monte antes de conseguir pular. Tem gente que nem pula, porque não quer mesmo. Tem gente que deixa pra pular outro dia, porque hoje não consegue. Tem gente que só pula acompanhado, enquanto outros não vão conseguir se não forem sozinhos. Tem gente que pula, se arrepende e passa um tempo fritando por causa disso (para esses, lembrem-se do carrossel).

Mas eu quero mesmo é falar do viço. Esse viço que mostra, no espelho, que a decisão foi acertada e mesmo todo o perrengue que possa ter vindo com ela vale a pena. O sorriso na hora que a gente acorda. A sensação de que não é mais necessário fugir.

Esse viço é o sinal mais claro que a gente está respeitando o nosso próprio desejo. E é impossível não reconhecer, se a gente estiver atento ao nosso próprio corpo. É só ficar atento.

A pegadinha é que a gente que produz esse viço. Quando pula (ou não pula). Quando faz o que quer fazer. Quando se respeita e banca as próprias decisões. E nem sempre essas decisões vão ser acertadas, mas se a gente seguir variando e tentando, a chance é que a gente acerte cada vez mais. Para lembrar do Skinner: o organismo (sim, você, organismo) deve operar sobre o mundo para produzir o reforçamento. Sem resposta, não tem reforço, não tem aproximação sucessiva, não tem modelagem, não tem viço. O segredo, às vezes, é tentar lembrar de quando teve viço. E ir. Mesmo com medo. Lá embaixo tem uma piscina, cheia de exuberância esperando que você tenha coragem de pular.

(Exposição Grande Sertão Veredas, no Museu da Língua Portuguesa, setembro de 2006. Foto minha.)