Feliz revolta às aulas

(Texto de fevereiro de 2013)

Cuidado: Escola (Mesmo assim nós vamos?)

Na volta às aulas as papelarias estão lotadas. Mães com listas de compras em uma mão e filhos puxando pela outra a mostrar a nova mochila do novo personagem que passa na nova TV lá de casa. O lápis tem que ser sextavado para o pequeno ter mais facilidade em manuseá-lo, a professora explicou na reunião dos pais. 36 cores para mais imaginação. É preciso escolher bem as etiquetas — cabe o nome inteiro ou vamos ter que abreviar? Corre-se abrir espaço no armário para os novos cadernos, um por matéria, o de desenho sem pauta e o quadriculado para a matemática.

Cada criança vai carregar sua mochila com quilos de cadernos e livros e lápis e tal. Tudo bem identificado com seu nome e classe. A classe onde ela vai entrar quando ouvir o sinal, onde vai sentar-se e prestar atenção por 50 minutos, até o próximo sinal, e então por mais 50, copiando em outro caderno outras palavras e números. Quando se virar para falar com o amigo, a professora vai provavelmente pedir atenção. Na segunda vez vai estar mais brava. Tem que aprender a se concentrar no que a professora está ensinando. E provar no fim do bimestre que conseguiu, ou terá nota baixa e ficará de recuperação. Talvez tenha que repetir o ano, ficará atrasada.

A caixa de 36 lápis vai voltar com 34, a mãe vai explicar que é preciso aprender a ter responsabilidade com as suas coisas. Seus lápis, seu caderno, sua lição.

De volta à escola, não fez toda a lição. Nas marcas de borracha a professora enxerga o desleixo, não a dificuldade. E ainda quer conversar durante a aula de biologia?! Não importa se pela janela se viu um casal de joaninhas, que estranho, uma em cima da outra! Na hora do recreio o amigo não vai acreditar.

Dia de prova, dor de barriga, e se for pego pedindo cola? Quem prestou atenção aprendeu, é desonesto pedir ou oferecer ajuda. Na aula seguinte, a entrega das provas por ordem de nota. O coração dispara: as maiores notas primeiro, ou são as menores? Aparecem os melhores alunos, os médios, os mais fracos. A bronca dos pais, a reunião na escola.

Professores dizem e pais reconhecem, algumas crianças precisam de ajuda. Não conseguem acompanhar o ritmo (de quem?), não se concentram e não aprendem. Como aquele que teve que ser praticamente arrastado para a aula de ciências, e em vez de prestar atenção à explicação sobre os movimentos dos corpos, arranjou com os amigos um campeonato de petelecos em bolinhas de papel! Mexem-se o tempo todo, não param sentados na cadeira e às vezes são agressivos. Mas os pais não precisam se assustar, isso é muito comum, e felizmente há profissionais especializados. A escola pode indicar alguns de confiança. Ler a bula do remédio ajuda a continuar não se assustando caso apareçam os efeitos colaterais.

O importante é não desistir, sabemos como o mundo lá fora é cruel, competitivo, assustador. Preparar as crianças para esse mundo é a obrigação da escola e a prioridade dos pais.

É por isso que no ano passado o Brasil atingiu o segundo lugar no ranking dos maiores consumidores mundiais de metilfenidato para crianças. A droga é indicada “para estabilizar as crianças a partir de 6 anos com uma síndrome comportamental caracterizada por distractibilidade moderada a grave, hiperatividade, labilidade emocional e impulsividade.”

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