Investigação judicial educacional: a última moda em Paris

Estou acompanhando famílias francesas que acabam de ser colocadas sob investigação judicial depois de anos praticando a educação domiciliar.

Como acontece com muitos de nós, no início da desescolarização de seus filhos essas famílias procuraram estabelecer um programa de estudos e cumprir as exigências do sistema educacional, só que em casa.

Entretanto, fora dos muros da escola, as crianças e os jovens, muitas vezes depois de um período já bem conhecido de desintoxicação, animam-se a conhecer e a experimentar assuntos não necessariamente previstos no currículo escolar.

Isso aliado à rede que quase sempre se forma em torno dessas famílias e ao tempo disponível das crianças e dos adultos, faz com que muitos se afastem bastante das matérias e dos métodos de ensino e mergulhem com entusiasmo em investigações originais.

Com o passar do tempo, as inspeções anuais impostas pelo Estado, nem um pouco flexíveis em relação ao que a regra determina que seja ensinado, geram relatórios insatisfatórios relativamente à referência curricular.

Fica fora do relatório toda aprendizagem não prevista no currículo, e o resultado das avaliações faz parecer que as crianças estão apresentando um déficit de aprendizagem.

Há casos em que, em uma avaliação de matemática ou física, a criança chega a solucionar o problema proposto mas a resposta não é considerada porque ela não demonstrou o mecanismo de resolução que costuma ser ensinado na escola, e sim outra maneira de resolver, como por exemplo, deduzindo fórmulas em vez de aplicá-las diretamente. Em um desses relatórios eu li que “a criança não tem capacidade de otimizar a solução dos problemas, levando mais tempo do que seria aceitável para chegar ao resultado”.

Como consequência, as famílias são colocadas sob investigação judicial e não poucas têm perdido o direito de manter seus filhos fora da escola.

Em breve vou compartilhar mais detalhes sobre o sistema de inspeções nos países em que o ensino domiciliar é constitucional e as objeções das famílias, para que possamos refletir diante da iminência da regulamentação do ensino domiciliar no Brasil.

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