O público, o privado e o comum — Parte 1

A troca e o dom

O senso comum em “evolução” tem apresentado um novo paradigma em que a troca é percebida como benéfica. De fato é um excelente mecanismo para gerenciar o compartilhamento de recursos.

No escambo, em vez de simplesmente venderem suas competências, recursos e bens para se permitirem comprar outras competências, outros recursos e outros bens, as pessoas têm praticado um outro tipo de comércio. Algumas vezes se pode perceber que o valor do que se troca não é dado pelos fatores que estamos acostumados a utilizar para calculá-lo (como o custo, o trabalho e o tempo envolvidos, a relação entre a oferta e a procura). Uma bicicleta pode ser trocada tanto por uma semente de milho xavante como por um pré-natal!

Tudo depende da relação que se estabelece entre as partes que escambam, e do próprio encontro entre essas partes, assim como os tipos possíveis de relação entre elas dependem de como as pessoas circulam, dos ambientes em que se cruzam e da disposição para se encontrarem.

A possibilidade da troca pode ser mais ou menos restrita conforme a especificidade do ambiente em que acontece. Em um grupo de escambo temático, como por exemplo um grupo para trocas de equipamentos eletrônicos, a possibilidade de outras trocas fica diminuída, ainda que as pessoas que frequentam esse grupo tenham — eu diria necessariamente — muitas outras coisas para escambar entre elas.

Mas, seguindo a mesma lógica, em qualquer ambiente de troca ou compartilhamento seletivo (como redes de financiamento coletivo mediante contrapartidas) a possibilidade de acesso e uso das competências, dos recursos e dos bens permanece inferior àquela que se revela em uma lógica de abundância.

O ponto-chave para a mudança de percepção é que não se trata de uma diferença quantitativa ou evolutiva. Não se chega à abundância ampliando cada vez mais as possibilidades de troca, mas sim abolindo a troca.

Se as pessoas, em vez de trocarem, disponibilizam seus recursos, eles simplesmente ficam desimpedidos sem que seja necessário saber a quem, nem para quê, e a escassez só pode acontecer se não houver encontro.

No lugar do falso problema “como fazer para trocar/compartilhar mais e melhor?” surge um verdadeiro problema, gêmeo de sua solução: se é o encontro que nos viabiliza e se é a disponibilidade que nos traz os encontros...

Isto não é uma exigência para que se sobreviva (mas talvez sim, para que se viva). Não é um chamado para que todos deixem de comprar, vender e trocar e passem a dar tudo o que têm. Isto não é uma crítica aos modelos de troca e compartilhamento. É um convite para perceber de outra maneira e transitar pelos diferentes mundos criados pelas diferentes percepções.

O mundo não precisa mudar para que o vejamos outro. E em outros mundos agimos de outras formas.

Parte 2: https://medium.com/@carlaferro/o-público-o-privado-e-o-comum-4a51ed36e939#.a7tvoeoqb

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Carla Ferro é autora, tradutora e conversadora.