Por que é preciso suprimir a escola obrigatória: entrevista com François Bégaudeau

Tradução de Carla Ferro

O ex-professor, romancista, chocou a especialista em educação Louise Tourret quando lançou no jornal Les Echos a ideia de supressão da escola obrigatória.

Nesta entrevista eles conversam mais longamente sobre o assunto, sobre o qual Bégaudeau responde: “se a escola fabrica estruturalmente desigualdades, é preciso suprimir a estrutura”.

Louise Tourret expressou com veemência ter “raramente lido uma coisa tão horrorosa sobre a escola e, como mulher, e mãe, o que vai me aliviar é explicar todo o mal que eu penso de uma tal proposição”.

Pouco depois do episódio, Louise Tourret e François Bégaudeau — que particularmente não tinha apreciado nem um pouco o comentário brutal à tão curta entrevista — aprofundaram a conversa, que publicamos a seguir:

Louise Tourret: Nós discutimos depois do artigo que eu publiquei sobre suas proposições; mas mesmo relevando o fato de que foram palavras pronunciadas rapidamente e que não se pode reduzi-lo a elas, não me pareceu que seu pensamento tenha sido deformado. Eu me pergunto realmente se você pensa que uma sociedade sem escola é desejável. Quer dizer, desejável em uma sociedade como a nossa, e desejável para as crianças das classes populares, que sabemos que vão mal no sistema escolar francês, um sistema que reforça as desigualdades sociais. Mas você, além dessa denúncia habitual e consensual, você veicula a ideia, bastante subversiva, de que a escola lhes quer fazer e lhes faz mal. Eu não tenho um olhar angelical sobre a instituição, mas não compartilho o seu ponto de vista porque me interesso muito pelos professores que agem com determinação pelo sucesso de seus alunos, inclusive escolhendo métodos alternativos. Mas me diga, esse seu desgosto com a escola, é um sentimento que você traz da sua experiência escolar?

François Bégaudeau: Dizer que a escola agrava as desigualdades sociais não é fazer uma “denúncia”, mas uma constatação. E ela é tão consensual quanto a constatação de que temos 3,5 milhões de desempregados na França. É uma constatação geral e indiscutível. E isso é um fato há muito tempo: desde, pelo menos, os primeiros trabalhos de Bourdieu nos anos 60 (já havia uma constatação similar bem antes). Então o que você chama de “denúncia habitual” é bem mais uma invariante da situação há sete, nove, quinze décadas. É isso que tenho a dizer quanto aos termos.

Agora, o que é espantoso, apesar dessa invariância (a única variável é que a escola é a cada ano mais desigual), é que ninguém coloca em questão a existência da máquina. A radicalidade da minha conclusão é apenas um ajuste à radicalidade da constatação: já que a escola fabrica estruturalmente desigualdades, é preciso suprimir a estrutura.

Alguns alegam, apesar da invariância, que seria possível corrigir a escola. Como se um fuzil pudesse se tornar, milagrosamente, mãos carinhosas, a escola viraria, por magia, uma máquina de desfazer desigualdades. À luz dos fatos eu não acredito nisso. E por uma razão simples: contrariamente ao que um inacreditável revisionismo nos faz crer — e se faz crer — , a escola nunca foi concebida para suprimir desigualdades, mas para legitimá-las. Sempre falamos sobre fracasso escolar. Nós nos enganamos. A escola teve sucesso absoluto. Foi perfeitamente bem-sucedida em sua missão de re-legitimar a classe dominante e de convencer os pobres de que eles mereciam ser pobres.

Que milhares de professores, todos os dias, produzam gestos igualitários, disso eu não tenho dúvidas. Que eles precisem se convencer de uma fábula igualitária para suportar seu quotidiano, eu compreendo. Mas quer os consideremos, de acordo com nosso humor, pessoas legais ou bodes expiatórios, o fato é que seus afetos subjetivos são irrisórios no seio de uma estrutura que produz desigualdades com tamanha eficiência.

O liberalismo na escola

Louise Tourret: Estou de acordo com você. Historicamente a Escola, a bela escola republicana, não se importava com as histórias de reprodução social. O historiador Claude Lelièvre explica inclusive como a esquerda era, sob a Terceira República, desconfiada de uma instituição que poderia fabricar traidores de sua classe, criar crianças “jaunes” [direita proletária]. Existe um contra-senso comum sobre os fundamentos da instituição: querer, como Jules Ferry, escolarizar todas as crianças, não significa que não lutemos contra a segregação social.

Dito isto, as coisas mudaram com o colégio unificado (concretizado pela direita), mas ele lutou, e ainda luta, contra a verdadeira cultura da escola, uma cultura elitista, uma escola cujo objetivo é selecionar… com a salvação sendo as grandes escolas, um objetivo atingido por uma ínfima minoria de alunos. A isso podemos acrescentar que uma grande parte dos professores, majoritariamente de origem burguesa ou pequeno-burguesa, e pouco ou mal-formados, tem dificuldade, no início da carreira, de enfrentar a realidade das classes dos colégios populares. Mas saiba que ninguém conta fábulas igualitárias sobre a escola, os estudos são conhecidos, divulgados: a França é campeã em desigualdades, todo mundo sabe.

E além disso eu não estou de acordo quando você diz que ninguém coloca em questão a existência da máquina. Ela é muito bem questionada! Toda uma corrente do pensamento liberal defende a ideia do cheque-educação, você sabe o que é? Não mais escolas públicas e muitas fórmulas disponíveis, escolas à la carte, alternativas pedagógicas etc.

Na verdade isso corresponde ao que aconteceu na Suécia. E os think tanks liberais aplaudem calorosamente… O único problema é que, graças ao estudo Pisa, sabemos desde o ano passado que o nível dos alunos suecos realmente caiu, e isso lança uma dúvida sobre os benefícios dessa medida.

Acima de tudo eu não vejo onde está sua lógica. Como é que se faz essa passagem entre mudar a escola e fechar a escola? Por que suprimir a escola tornaria o mundo mais justo, mais divertido… Por que seria isso um benefício para a sociedade? Um exército secreto de gentis pedagogos estaria esperando que as escolas fechem para permitir às crianças das periferias sugarem o mel das pedagogias ativas? As crianças, com as escolas fechadas, vão todas querer aprender mais? E claro, todos os pais saberão aproveitar essa maravilhosa oportunidade de ter que ensinar seus filhos a ler, a contar, a pensar… Descreva o que você imagina.

François Bégaudeau: Cada privatização, por definição, abre um mercado. Isso vale para as estradas tanto quanto para as escolas. A privatização da educação constituirá um maná excepcional para o capitalismo. É assim que ele espera a sua hora, pacientemente, e que nós caminhamos seguramente para a generalização de um business da educação, o que torna nossa discussão já caduca.

Mas antes de fazer mal à escola, esse assalto liberal terá feito muito mal para o debate sobre a escola. Terá prejudicado muito a lucidez dos professores sobre o que eles fazem. Há décadas o foco sobre esse inimigo exógeno nos impede de olhar de frente o mal endógeno e estrutural da máquina. Foi assim que uma energia reformista (mudemos a escola) se converteu em energia defensiva (salvemos a escola). Esquema que podemos identificar em muitas áreas e que explica esse lento deslize conservador da esquerda. E então, de tanto se querer salvar a escola, só se acentuou a ideia de que ela é boa por princípio. É por isso que precisamos nos entender no seguinte: quando falo sobre a fábula igualitária eu não estou dizendo que os professores e outras pessoas ignoram que a escola fabrica a desigualdade (é claro que eles sabem disso), mas estou dizendo que eles pensam que “a escola republicana” tem historicamente a vocação de corrigir as desigualdades. A lucidez que você tem sobre as origens da escola, acredite, é muito rara entre os professores. E para dizer a verdade poucos entre eles tiveram a ideia de se voltar para os fundamentos, mesmo que fosse apenas lendo textos. É, portanto, majoritariamente admitido que:

  • a escola republicana é uma invenção formidável
  • seus princípios foram desviados, e é por isso que ela vai mal

E aqui nós não estamos de acordo de forma alguma. Há um consenso absoluto, na França, sobre esses dois pontos. À esquerda e à direita, de Marine [Le Pen] a Jean-Luc [Mélenchon]. Cite um intelectual ou uma figura política francesa que não faça o elogio da escola republicana, que não apele por sua refundação etc. E você participa disso, visivelmente, já que você passa tão rápido pelos aspectos estruturais para se deter nos problemas exógenos que se deve tratar de resolver para que a escola seja igualitária (professores mal-formados etc.).

Eu vou voltar então para a estrutura. E digo novamente pelo que eu acho que você passou muito rápido. A escola não fracassou em sua tentativa de corrigir as desigualdades, ela cumpriu perfeitamente a missão de legitimá-las. A escola não discrimina por erro, mas por essência — e abolir as provas não mudará nada. A escola não tem a vocação de salvar os pobres, mas de neutralizá-los e convencê-los de que eles merecem ser o que são.

O ponto é este, e não outro. Se você estivesse de acordo com essa análise estrutural, você não acharia nem um pouco estranho querer suprimir a escola. Isso significaria simplesmente suprimir uma coisa que faz mal. Como o cigarro nos lugares públicos, em suma. Enfim, que faz mal para alguns. Que faz mal às classes populares. O que é ser um proleta na escola? É, em 99% dos casos, a certeza de que se terminará em uma linha de montagem ou em um serviço desqualificado. Isso é sofrer, dia após dia, hora após hora, a constatação de sua própria indigência, com requintes de humilhações regulares. É muito aborrecimento. É, em resumo, um jogo penoso que termina mal. Não volto atrás: não gosto de ferrar os pobres. É desse ponto de vista, antes de mais nada, que eu queria mesmo que acabássemos com a escola. Você deve ter compreendido que meu espírito não é nem de perto o mesmo que o dos liberais.

Você me pergunta o que eu proponho, e pelo que eu substituo a escola. Mas em primeiro lugar eu não tenho a tarefa de propor coisa nenhuma. E além disso, nós substituímos o cigarro por alguma outra coisa nos cafés? Não, era ruim, nós eliminamos, ponto. A propósito, minha ideia não é tornar “o mundo mais justo e mais divertido”, e sim retirar dele esse enorme espinho que:

  • oprime os pobres
  • entedia as crianças
  • deprime os professores
  • alimenta o ressentimento de uma parte e de outra (o fel dos alunos, o racismo dos professores — veja o crescimento dos votos na FN)
  • não ensina nada
  • desaprende a aprender
  • fabrica espíritos normatizados

Então eu não espero que a supressão da escola leve ao que quer que seja em termos de pedagogia ativa. Sua leitura dos meus textos me parece, nesse momento, muito superficial, sendo que tentamos justamente alcançar as raízes das coisas: aprender, educar, o que isso quer dizer afinal? Concordando com Rancière e com alguns outros libertários tortos, eu acho que aprendemos sozinhos, e que é melhor assim. O que me leva a colocar em questão a ideia, ainda mais consensualmente admitida, de que é preciso educar. É a própria noção de educação que me parece suspeita, ainda mais quando uma nação se encarrega dela — com nossos pais a gente tem que lidar (e mesmo sobre isso poderíamos discutir). Mas eis o que nunca colocamos em questão: que é preciso educar, e que essa missão deve ser politicamente assumida.

______________________

Esta tradução foi realizada com aporte financeiro anônimo.

Se lhe serviu, veja como apoiar outros trabalhos de Carla Ferro no grupo "Na orla — criações incidentais" no Facebook: https://www.facebook.com/groups/214212105584854/?fref=ts