Um texto sobre outra coisa

Mais um jornal noticia o reconhecimento pelo MEC de escolas consideradas inovadoras.

E isso me faz pensar na forma como estamos acostumados a nos comunicar. Damos e recebemos notícias. Informamos, transmitimos o que sabemos que queremos que o outro entenda, de preferência de maneira “clara, concisa e precisa”, como me elogiou certa vez uma professora ao receber meu trabalho sobre Spinoza em meu primeiro ano na faculdade de filosofia.

Por que devemos ser claros? Por que concisos? Por que precisos? Porque comunicação é transmissão de palavras de ordem.

As palavras de ordem não são apenas as exortações a uma Bastilha qualquer, inscritas em bandeiras ou precedidas por hashtags.

Palavras de ordem são formulações que admitem pouco ou nenhum desvio de seu sentido implícito. Que formam o senso comum, os nossos hábitos quotidianos, os nossos gestos repetitivos e as nossas compreensões automáticas.

São palavras de ordem os votos de sucesso. As felicitações, os encorajamentos, os prêmios por bom comportamento, tanto quanto o são as advertências e os protestos.

Então o jornal noticia que as escolas estão inovando, e que isso é bom. Seu sucesso merece ser reconhecido, divulgado e… replicado.

Eu conheço boa parte dessas escolas. Ou melhor, conheço boa parte das pessoas que compõem esse cenário apresentado como bem-sucedido. E tenho outra coisa a dizer sobre elas. Ou sobre minha impressão a seu respeito.

Elas fracassam. Todos os dias. E por menos claro, conciso e preciso que esse meu relato sobre o seu fracasso consiga ser, eu adianto que são seus fracassos que eu respeito. Que me inspiram. Que roubam de suas próprias escolas, de mim e do mundo uma porção importante do sentido que pretendíamos alcançar.

Fracassam quando um estudante não se interessa por nada do que lhe é proposto e, indagado sobre o que gostaria de fazer ou aprender, ele não responde. Encorajado, ele não reage. O seu silêncio lança essas pessoas num escuro tão grande que só sei porque já fui atirada com elas em abismos bem fundos e sem saída.

Sempre que não há saída, e isso acontece a cada olhar de uma criança ou um educador perdido de seus sentidos, essas pessoas caem, e de sua queda inventam um mundo. Não uma solução. Um mundo novo, feito de novos problemas. Cavam sob as estruturas das escolas, colocando-as em risco por seu próprio peso, um vão. Onde alguma coisa — quem sabe o quê? — pode surgir.