Xingar ou ensinar: que exemplo você quer ser?

Em muitas escolas, e provavelmente também na sua ou na do seu filho, professores estão explicando aos alunos a verdade sobre a crise política no Brasil.

A verdade.

Mas qual verdade? Aí depende da preferência do educador ou da instituição a que ele deve obediência. Do jornal que ele lê, dos amigos que ele tem, e são tantas coisas que compõem a sua visão que não há duas pessoas no mundo que reúnam a mesma combinação de elementos.

Como se pode dizer que há uma interpretação correta desta realidade complexa que estamos vivendo?

Se percebêssemos que é a partir de nossas interpretações que construímos nosso saber, teríamos coragem de batizá-lo de verdade e de ensiná-lo nas escolas, cometeríamos o abuso, como descreve Nietzsche, de tomar nossa idiossincrasia por medida de todas as coisas?

Abuso. Irresponsabilidade travestida de educação. Ou é isso mesmo a educação? Uma irresponsabilidade?

Não queremos xingar o político na frente das crianças. Isso seria um mau exemplo. De que ângulo enxergamos o “exemplo”, que faz com que a palavra admita adjetivo?

Será que não é essa mania de ensinar que nos faz pensar assim, tão moralmente? Ou será que é o nosso moralismo que nos leva a ensinar compulsivamente?

Por que nos vemos como exemplos do que os outros devem ser? Por que não admitimos, em vez disso, que somos exemplos do que nós somos?

Uma coisa é uma criança observar, testar, imitar um gesto ou repetir palavras. Outra é adotar o comportamento e o discurso do outro como seus. Mas, adestradores que somos, do corpo e do desejo do outro, é a segunda atitude que almejamos para elas, como se fosse a evolução natural da primeira.

Se recuarmos daí, só pra olhar… não parece que o peso moral e ofensivo desse tipo de xingamento-desabafo só existe porque nos colocamos no papel de exemplos-para-o-outro, de ensinadores? E se nos retirássemos desse lugar? Será que a gargalhada da criança repetindo o palavrão nos assustaria tanto assim? Ou será que nos devolveria a leveza e gargalharíamos juntos, delas, com elas e de nós?

Nesse riso possível talvez esteja a responsabilidade total de estar ali, de se ver e de se permitir mudar com o mundo.