À noite

Carla Laes
Jul 25, 2017 · 2 min read
Human Error — Victoria Siemer

Tudo começa à noite. Estou sempre cansada, mas o sono não vem. Não sei o que incomoda mais: o barulho da série na Netflix ou o silêncio. Demoro pra dormir. Acordo uma dezena de vezes na madrugada, tremendo e com o coração disparado. Tenho medo. Estou sozinha. Às vezes, acordo antes do despertador e não consigo pegar no sono por mais cinco minutos até ele tocar. Ainda estou tremendo. Ainda estou com medo. Penso em 32 coisas ruins antes de colocar os pés pra fora da cama. Tem um nó na minha garganta. O trajeto de ida é difícil, o trabalho é difícil, o trajeto de volta é difícil. Quero voltar a dormir. Mesmo sabendo que vou demorar pra pegar no sono, quero voltar a dormir. Quero o dia seguinte porque talvez ele seja mais fácil. Talvez eu não sinta nada disso. Talvez eu durma pesado, talvez não acorde na madrugada, talvez não tenha medo. Tento acreditar que é só um dia ruim e os outros dias serão bons, mas no fundo eu sei que essa sensação vai voltar. Porque eu fracassei no trabalho, porque eu não consegui ajudar uma amiga, porque ele sumiu aquela noite, porque minha família não é mais a mesma, porque não consigo me empenhar nos meus projetos, porque não saio pra me divertir, porque me enganaram, porque me traíram, porque me machucaram, porque eu me perdi de mim. Porque tenho 24 anos e não estou indo a lugar algum. São feridas abertas que eu tento curar sozinha e falho. Às vezes, acabo me ferindo mais. Acabo cutucando, tirando o curativo antes da hora, pra ver se já melhorou. Não melhorou. Não sei quando vai melhorar. Estou procurando ajuda, estou tentando me expôr, estou tentando me abrir. Parece que isso afasta as pessoas, todos tão cansados de ouvir minhas histórias tristes. Alguns acham simplesmente que estou irritada ou que sou chata. Ninguém parece se importar muito, mesmo que no fundo eu saiba que alguns se importam. Sei que é difícil lidar com quem eu me tornei. Eu não era insegura, e agora sou. Eu não era pessimista, e agora sou. Eu não era desconfiada, e agora sou. Eu não tinha medo, e agora tenho. 1001 medos diferentes e principalmente medo de que isso nunca acabe. Quero me curar. Quero esquecer. Quero voltar a dormir. Mas tudo começa à noite.

    Carla Laes

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