Ossos do ofício

Ser de humanas é enfrentar as dificuldades de lidar com o ser humano.

Eu sou de humanas desde que me entendo por gente. Nasci com sol em Peixes, era quase impossível escapar disso. De humanas que sou, sempre achei que meu destino era lidar com gente. Que minha vida era a beleza da inconstância do ser humano, o evoluir do seu pensar, a delicadeza do seu sentir. Sempre fui muito falante, sempre escrevi muito bem, sempre senti ao extremo, então me pus a estudar comunicação. Vai ser ótimo, eu pensei, trabalhar em contato com gente, falando pras pessoas e ouvindo as pessoas.

Daí que eu completei 24 anos, trabalho em um veículo de comunicação (o segundo já), e constatei: lidar com o ser humano é quase humanamente impossível (ironias da vida né). Principalmente quando lidar com eles faz parte do seu trabalho, quando antes das suas palavras representarem você mesmo, elas representam uma instituição.

Esses dias eu estava respondendo mensagens em uma das redes sociais de onde eu trabalho. Cheguei nas mensagens de uma mulher que reclamava muito sobre uma notícia que postamos a respeito daquela ex-BBB Emily. Segundo ela, estávamos dando moral pra uma “vagabunda” que estava mentindo sobre nunca ter feito sexo no reality show, enquanto o Brasil inteiro viu que ela tinha feito isso e aquilo (vou poupar esse texto dos termos que foram usados). Tentei, da forma mais educada e imparcial possível, responder que os atos da tal Emily eram um problema somente dela, e que não cabia a ninguém julgá-la por isso. Aproveitei pra pedir que ela sugerisse uma pauta, já que as nossas não estavam agradando. Ela resolveu sugerir uma matéria a respeito do também ex-BBB Marcos, alegando que ele era um homem de bem, médico respeitado, de caráter e que jamais tinha feito nada contra a Emily.

Pois bem… Não assisto BBB, não acompanhei a saga do casal Emily e Marcos. Sabia muito pouco sobre ambos, nunca simpatizei muito com o que lia sobre a menina. Porém, o jogo virou quando não só li, mas vi imagens muito claras de um relacionamento abusivo: o cara apontando o dedo na cara da menina, gritando, acusando, chantageando, pressionando e, por fim, machucando. Não que a menina tenha virado a melhor pessoa do mundo, mas eu já estive em um relacionamento abusivo e sei como é conviver com um homem descontrolado consigo mesmo, mas que exerce total controle sobre os outros. E independentemente do programa ser armado ou não, eu simplesmente não podia ser conivente com aquilo. Então, meu bem, não venha defender esse tipo de homem pra mim. Mas como dizer isso usando o perfil por meio do perfil da empresa onde eu trabalho? Como tentar explicar que a visão daquela mulher estava completamente errada? Que ela não podia julgar uma menina só pelo comportamento sexual dela e aliviar a barra de um cara que tinha feito coisas tão horríveis em rede nacional? Como é que você lida com uma pessoa que acha que violência psicológica tá ok, mas liberdade sexual é inaceitável, sem perder a cabeça tendo em mente que você está falando através do perfil de um veículo de comunicação muito conhecido? Infelizmente, não consegui encontrar uma resposta pra isso, e achei melhor ser o mais imparcial possível e me esquivar do assunto o quanto antes. Difícil.

Em um outro dia rotineiro no trabalho, passando por um corredor, ouvi a seguinte chamada “Dicas de churrasco, com Tatiana Bassi”. Por coincidência, o cara que gravou essa chamada estava passando por mim no corredor. Antes mesmo de conseguir comentar que tinha curtido a chamada, levei um balde de água fria quando ele me disse: não é por nada não, mas quando vem o nome de uma mulher depois de “dicas de churrasco”, não perde a credibilidade? Fiquei perplexa, levei um tempo pra conseguir responder o óbvio: mas é a Tatiana Bassi.

Estamos em 2017, uma época em que não deveria mais haver essa distinção de “assunto de mulher” e “assunto de homem”. Hoje em dia, todo mundo pode entender de tudo, ser especialista em qualquer coisa, não importa qual o sexo. Além disso, essa Tatiana é herdeira do Marcos Bassi, falecido dono da churrascaria Templo da Carne e um dos nomes mais conhecidos e respeitados do Brasil quando o assunto é churrasco. A filha, junto com a irmã, cuidam do legado que o pai deixou. Se, na cabeça de algumas pessoas, ela simplesmente não pode entender de churrasco por ser mulher, será que não conta em nada o fato de ela ter aprendido tudo com um dos melhores “churrasqueiros” do país? Tudo isso me passou pela cabeça em segundos, e acho que são argumentos razoáveis pra que qualquer pessoa mude de ideia sobre a “falta de credibilidade” que uma mulher passa falando sobre cortes de carne. E eu até quis falar tudo isso pro cara que estava na minha frente, mas ele já tinha dito “mesmo assim” e saído de perto. Continuei perplexa, agora não só pelo fato de ter participado daquele diálogo, mas principalmente por não ter dado continuidade a ele, por ter desistido de defender uma coisa que acho importante: a básica igualdade entre os sexos. Deixei de lado uma discussão que, tempos atrás, jamais deixaria passar em branco. Era um colega de trabalho com quem já tive debati temas similares inúmeras vezes e com quem meus argumentos nunca tiveram efeito nenhum, essas conversas só geravam desconforto na nossa convivência nos dias seguintes. Difícil.

Não é fácil manter certos ideais em ambientes corporativos, e mais difícil ainda é defendê-los. Tenho prazer em trabalhar onde trabalho e permaneço apaixonada por comunicação, mas todos os dias vejo que é ainda é preciso medir nossas palavras e pesar o que vale a pena ser dito ou não. Nunca fui de engolir sapo nem levar desaforo pra casa, mas o desgaste das discussões é grande e, às vezes, é em vão. O ser humano é difícil.

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