Ah, saudade
Há na saudade todo um trabalho de imposição de poder, que submete até os corações já muito experimentados em ausências. Os danos que causa não devem ser confundidos com os de um corriqueiro sentimento de falta.
A falta é flexível, ajusta-se aos tempos livres, às horas disponíveis para ruminar lembranças, e, ainda que comprometa certos hábitos ou detalhes do quotidiano, não tem peso nem ocupa espaço.
Já a saudade, funciona como um balão, à medida que enche apropria-se de todo o ar respirável e de todos os espaços de sossego e de repente é uma entidade corpórea, respeitável, de estrutura musculada, que faz vincos no lençol e sombras no escuro, uma ditadura que ordena o modo de investirmos os dias e de pensarmos as coisas e de sonharmos à noite, até ao ponto de não haver uma molécula de realidade onde não ressoe o nome de quem está ausente.