Carta de uma egoísta

Oi, ou deveria começar com "olá"? Acho que não cabe o "como você está, meu amor?" ou cabe? Enfim. Creio que a forma como inicio não importa, assim como foi tudo entre nós. Importará apenas o final, mas nada de pular direto, segure seus impulsos, meu bem. 
 
Começos são olhares, suposições, primeiras impressões que perdem-se no tempo ao enfrentarmos as imperfeições na moral turva e as bagagens emocionais abertas durante discussões fortes demais para serem relembradas. Deve ser por isso a vontade de reencarnar nas primeiras vezes, fazer tudo de novo, fazer tudo diferente, fazer tudo. De novo e de novo. 
 
O primeiro encontro, puxar-te para o meu lado, ser descarada e roubar um beijo mesmo sendo errado. Ao primeiro beijo, não poupar a mão boba, acender a luz pra te mostrar os sorrisos a cada pausa com respiração ofegante, e trancafiar a porta pra ninguém entrar, porque nós não iríamos querer sair mais. A primeira declaração, talvez eu bebesse mais, falasse mais, não fosse embora quando você mandou. Mas faria tudo de novo do jeitinho louco que foi. 
 
E se teve uma coisa que eu fiz no nosso tempo foi me declarar. Em cada bar de cada cidade que passo, cada um que me tromba na rua, sabe um pouquinho do que transborda em mim sobre você. Que sentimento delicioso e prazeroso de sentir por ti. Não sei como não cansou-se das baboseiras sobre o amor que lhe digo. Posso estar muda e meus olhos estão gritando que a amo, isso é fascinante e assustador. Ainda bem que não sou medrosa. 
 
Não mais. 
 
Você que ama fotografia, deveria ver as fotos que tirei de ti na minha mente. Eu tenho medo de te olhar. Olhar demais. Quero sempre mais. O medo do vício até bate na minha porta. Mas que enxurrada de tesão sinto ao ver essas fotos quando me deito pra dormir ou me levanto para sair. Não é (só) sexual, ignore a pervertida que sou. É uma excitação fora do normal. Uma animação em pensar em ti. Em ti bem. Em ti sorrindo e florescendo. Em ti comigo. 
 
Crescemos, não de um dia pro outro, nem em momentos marcantes demais. Foi de pouco em pouco. Ninguém sentiu vindo, não teve como prever, pegou a todos de surpresa. Quando vimos, estávamos fazendo as malas para não morrer de saudade durante as férias. Mil e um planos, vontade de tudo e ao acordar, vontade de nada, apenas vontade de nós. 
 
Desandamos. 
 
Esse parágrafo é de uma palavra para respirarmos. Cabe até um alívio cômico agora para ninguém querer afogar-se em lágrimas salgadas demais como o mar que levou nossa paz na correnteza. Pegue esse momento para pensar em algo que te faça rir. 
 
*Pausa para lembrar das idiotices que eu falo e/ou faço*

Sempre lhe disse que precisavas respirar. Tempo para se amar. Mas como uma boa e teimosa dona de si, você não ouviu a ninguém e esperou dizer isso pra si mesma. Que bom que o disse. Pena que esperou eu me acostumar com sua presença. Teu cheiro, teu abraço, sua voz calma e seus loucos beijos. Acostumei-me com todos os motivos de me apaixonar por você. 
 
E agora o que faço, tendo que ir contra tudo o que quero, tentando respeitar algo que meu coração não quer? Desculpa meu egoísmo. Perdoe o não sair, o não me ir. Vou dar o meu melhor. Mas sou egoísta demais pra não falar de amor, não luta por amor, egoísta demais para falar que acabou. Então essa carta não tem final, te amo e não desisti de nós, a não ser que você pule fora, nós também não teremos final.

Continua…