Sobre “encaixotar” a vida….

Em um dia de rotina qualquer, nessas conversas sobre vida, planos e trabalho, meu pai (sábio como sempre) soltou uma frase simples e direta que eu jamais pensei que fosse me fazer pensar tanto e inclusive me inspirar a escrever esse texto… O foco da vez era a minha mudança de apartamento, o processo chato de encaixotar coisas, fazer aquela limpa no armário, e no meio dessas questões ele fala: isso filha, coloque sua vida em caixas e leva para outro lugar. PLIM!!!Nesse exato momento foi como se abrisse aquele balão branco de imaginação que eu encontrava semanalmente no Almanacão da Turma da Mônica quando era pequena, e nele eu me via rodeada de caixas contendo cachorro, papagaio, periquito, sapatos, carro, sonhos e viagens em cada uma delas. Essa frase parece muito banal dita assim em um texto amador como o meu, mas se pararmos realmente pra pensar é muito significativa e verdadeira na prática, ainda mais para nós seres humanos que temos uma dificuldade danada de encarar mudanças em geral.

A ideia do novo, do desapego e da mudança é bem fácil na teoria e um pouco complicada na prática, na verdade como tudo na vida, viver sem correntes que te prendam muito a algo ou alguém de forma com que isso te torne completamente dependente daquilo. Os mais sensíveis dizem que o desapego é um incentivo à vida irresponsável que não respeita sentimentos alheios e sugere o caos emocional onde as pessoas nunca se deixam levar a conhecer mais profundamente umas às outras, eu já diria o contrário (após muitos tropeços assumo que meu lado racional tomou conta de 75% do meu corpo). Minha perspectiva sobre desapego mudou muito de uns tempos pra cá. Confesso que antes eu via muita “frieza” no ato de “abrir mão” das coisas e das pessoas, eu julgava tal atitude, criticava, mas aí me deparei com a seguinte questão: como é que eu vou conseguir dar lugar as coisas novas, ao meu presente, ao que eu preciso nesse momento se eu ainda guardo um monte de bugiganga que não me serve mais, que não me leve mais a caminho algum e que não faz a menor diferença na minha vida? Infelizmente sou obrigada a admitir que nesse sentido pessoas e objetos podem ser bem similares. O meu armário mesmo, é um reflexo do que minha vida tem se tornado com a minha política do apego indiscriminado às memórias inúteis.

É muito engraçado como o fato de mudar de casa mexe com nosso interior. A cada cômodo mexido parece que abrimos um capítulo do livro da vida, um livro com segredos e histórias não visíveis a qualquer um. O quarto, por exemplo, a gente abre a gaveta e joga um amor, mexe nos cabides e coloca um moreno lindo e genioso naquela camisa branca florida, abrimos umas caixas e revivemos momentos que nem lembrávamos mais. Organizar o quarto é tipo uma lavagem de roupa suja sem censura com seu passado num estado de nostalgia extrema. Encontramos rostos familiares, uns se perderam, uns casaram, uns morreram, e o coração aperta. São objetos que contam mais do que histórias, contam quem você é, quem você foi e quem você deixou de ser de alguma forma. Meu armário é basicamente composto por passado, presente, futuro e o que eu jamais vou deixar de lembrar.

Após esse processo de encaixotar a vida como diz meu pai, confesso que engoli em seco no final. E com certeza vocês devem se perguntar o porquê disso, uma vez que deixei claro que meu lado sentimental não anda tão aflorado né? Aí que vem a conclusão da minha teoria antagônica do desapego. A questão é que além das bugigangas, cartas e fotos velhas que não tinham mais sentido, eu joguei fora coisas que um dia foram importantes, ou que ainda eram importantes e necessárias. E esse processo todo, me lembrou uma frase que ouvi da avó do meu primeiro namorado: “tudo que é demais sobra”, ou seja, uma hora a gente precisa descartar o excesso, o que não nos serve mais, o que não é mais necessário para sermos felizes, para o peso não aumentar e um novo espaço se abrir. Aí vem minha auto sabotagem: e se uma daquelas caixas da minha vida cheia de DVDS de séries e comédias românticas pudessem servir de decoração para a minha mais nova super sala de TV? Não! Temos que deixar ir. Todo novo ciclo precisa de uma escolha e uma renúncia, e a gente renuncia todos os dias, toda hora, e a todo momento, não só para longos ciclos, mas inclusive quando a gente acorda e quando vamos dormir. Parem pra pensar, a gente abre mão da balada de quarta a noite porque temos que acordar cedo pra trabalhar na quinta, a gente abre mão do café da manhã porque perdemos a hora e não podemos nos atrasar para aquela reunião importante, e assim vai. A gente renuncia as nossas “caixas da vida” com amor porque sabemos que cada caixa que vai embora, é no mínimo um aprendizado ou uma saudade gostosa de nós mesmos.

Concluindo, o mais importante de tudo isso, é não esquecer de que as caixas vão, mas a gente fica. Ficamos mais dispostos, mais fortes e mais nostálgicos, mais leves e mais notáveis também. As caixas vão embora….mas a gente fica.

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