
Amanda
Ela corta os corredores da Universidade com as suas pernas grossas, entra e sai em silêncio da sala, como o fim de tarde na floresta. Tem a língua áspera pro mal feito, tem as mãos macias pro afago. Se chama Amanda e é digna do mais nobre sentimento.
Não posso falar daquela moça sem notar aquela cicatriz latente e a áurea de luz que a encobre. Pela extensão da marca sinto o meu coração doer. Será que é o peso dos sonhos que carrega? A voz grave das perdas que insistem em ecoar?
Me sinto desconcertada ao ver que ela me notou olhando para sua pele ferida, ela se aproxima de mim, preciso perguntar:
— Desculpe, moça. Parece recente… o que te aconteceu?
Amanda abre os lábios vermelhos num sorriso curado e diz sem hesitar:
— Foi a vida, menininha.
Suas palavras caem sobre mim como uma chuva torrencial, que sara a terra, que aviva os rios. Me sinto agraciada. Conheci a Amanda aquela tarde e agora eu sei, milagres têm endereço e olhos claros.