Bem vindo

De volta

Carla Santos
Jul 28, 2017 · 3 min read

ALAN ECHANO (FILIPINO, DAVAO CITY, DAVAO REGION, PHILIPPINES) — PROJECTION ART, 2012 PHOTOGRAPHY


Não havia um certo convite, porque já era do conhecimento de todos que lá pra vinte e alguma coisa daquele mês, todos estariam reunidos para matar o tempo nas águas quentes do rio. Já era madrugada, talvez o quinto dia de bebedeira, três e alguma coisa no relógio.

Pouco importa as coisas exatas.

Levanto da barraca que não dividia com ninguém, percebo que acabou a cantoria dos rapazes no píer e dou as passadas sob as pedrinhas fora do ritmo das cigarras, andando na direção da água.

Era um sofá de madeira, enorme, aconchegante, circular. Me acomodei o suficiente para esticar as pernas e estar confortável o suficiente para não pensar em nada. A lua clareia e faz de tudo seu espelho. Já pela metade do cigarro um farol se destaca pela entrada da propriedade, como uma surpresa que meu corpo todo esperava.

É ele.

Saindo do carro, guardando as chaves, fazendo meu cigarro queimar mais rápido.

Eu odeio toda essa ginga barata que ele usa ao atravessar a passarela, apesar de aparentar menos confiança do que antes de tudo acontecer… e acabar. Ele vem ao meu encontro sem falar nada, e assim fica por meio minuto.

— A gente pode conversar?, ele me pergunta e eu não conheço mais aquela voz. Estive todo esse tempo revivendo apenas imagens na minha mente doente e falida.

Apago o cigarro no braço do sofá e respiro o suficiente para apaziguar as batidas que meu coração dá enquanto meu sangue esfria.

— Não sabia que você viria, digo em alto em bom som com a pouca lucidez que me resta.

— Eu precisava vir, retruca, sem me olhar nos olhos.

— Pode falar.

Eu estava tão exausta que superou o meu medo de perdoá-lo. Ele poderia dizer o mínimo que eu ouviria de coração aberto, só pra ter consciência que eu não estava mais num duelo entre minhas dores e coisas que eu precisava esquecer. E ele começa.

— Eu sempre quis ter esse encontro, por mais que eu soubesse que seria impossível entender tudo o que eu sinto. O que eu ainda sinto. Eu ainda não sei qual foi a pior parte… se foi quando a gente terminou, ou quando eu percebi que fui eu… eu que… magoei quem eu amava a ponto de perder pra sempre. Eu tô errado, Cacau. Eu fui errado, no que eu fiz, no que eu falei, em como eu te toquei e machuquei. E como eu fui falho em te fazer se sentir a mulher que eu quis ter presa, acorrentada, na minha vida.

Ninguém arrisca cruzar os olhares, estamos imóveis sob o sofá escutando a correnteza do rio. E assim ficamos por mais um tempo regressivo. Quero tocá-lo, dizer que está tudo bem. Que eu não quero mais aquele aperto no peito e as coisas podem voltar ao seu devido percurso. Mas minha pele arde a cada palavra que ele tece na boca envolta de barba espessa. Agora todo meu eu é sentimento e nada funciona equilibrando o certo e errado, percebo a inclinação na direção do meu desejo mais secreto me embriagar a mente, não quero lutar contra, quero perder a briga.

— Tá tudo bem, é só o que eu consigo dizer. Enquanto meu coração geme palavras intraduzíveis, eu me odeio por tudo o que eu vivi sendo sua, e ainda tenho marcas.

— Me perdoa.

— Mas elas saram, Rafa. Elas vão sarar.

O silêncio insiste em nos constranger e pela primeira vez, como duas crianças tímidas, nos olhamos, sem máscaras. Eu estava visivelmente abalada com a sua presença. E ele sabe. Sabe tanto que arrasta a ponta de um sorriso pro canto da boca enquanto nota o novo cumprimento dos meus cabelos com os dedos. Ele me olha no fundo dos olhos com tanta intensidade que me parece uma prece, um pedido, um clamor. Eu posso estar errada, como errei tantas vezes em ver algo de bom em todo aquele teatro narcisista, mas dessa vez me parecia sincero. Ele me olhou como quem pede um abraço, no frio.

E eu dei.

Um abraço apertado, calado, e no primeiro momento estamos entregues um ao outro numa renúncia de lágrimas e pesadelos.

— Senti sua falta.

— Bem vindo de volta.

Carla Santos

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Que bom que você veio. Tudo isso virou livro, acesse: @todaluzelava no Instagram.

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