Carne viva

E tudo que ele me arranca usando a boca

— Isso não dói?

O rapaz da floricultura me pergunta, intrigado atrás do balcão. Estou rasgando a pele do meu dedo indicador, onde a cutícula fica curva. Os outros dedos estão em carne viva por conta desse hábito. Faço isso com o olhar fixo em algum ponto aleatório esperando minha vez de pagar as orquídeas e ir embora.

— Eu gosto de me machucar assim.

Respondo como um gatilho automático, entregando no caixa as notas amarrotadas da minha carteira, recolhendo as sacolas e indo embora.

Giro a chave na porta do apart, o celular avisa sobre as mensagens recebidas, a sala foi invadida pelo tom terroso do fim da tarde e meu coração está ansioso para saber se ele apareceu, como faz o sol quando raia.


eu não sei pq agora as coisas saíram dos trilhos. eu sei q vc nunca me pediu nada. n me cobrou nada e nada é culpa sua. mas agr ta tudo muito depressa e fora dos trilhos. eu não queria ter essa conversa assim mas quando eu te vejo me perco no seu perfume e é por isso que isso tudo virou uma bola de neve tb. você me.. fascina e meu coração ta perdido. eu te quero mais que tudo e eu fui todo seu mas vc n cabe na minha vida. pq eu n presto dani. e eu n quero vc com seu trabalho sua família linda tudo oq vc construiu e merece ter dividindo espaço com toda minha zona. vc é linda e n quero ir embora. mas eu preciso.


A tela do celular desliga e sinto o ar pesar. É sexta feira, ele ia dormir aqui hoje e é por isso que tem roxo em toda parte, no batom, na orquídea e no tecido que envolve minha silhueta. Eu tenho muito vinho e duas taças e um sofá retrátil, mas agora me falta o corpo, como eu esperava. É melhor que eu comece a engolir todo esse álcool antes que minha saliva deseje o gosto daquela pele de café.

02:14

— … oi

— Abre pra mim. Por favor.

— De novo?

— É a última vez.

Eu gosto de me machucar assim.

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