O recado da Beyoncé (*)
(*) Texto originalmente publicado na edição de 09/02/16 do Correio do Povo
Porto Alegre tem algumas pichações que já viraram meio que parte da cidade. No final dos anos 70, havia aquele muro no Bom Fim onde se lia “Deu pra ti anos 70”. Lembro também de algumas mais recentes. Há duas que nesse horário — seja qual for o horário em que você estiver lendo essa coluna — não fica de bom tom comentar. Tem mais. No Viaduto da Borges, se não me engano, havia (ou há?) uma saudação à “heroica resistência iraquiana” (?!?), enquanto outra afirma que o “imperialismo é um tigre de papel”. Em um dos muros da Praça Argentina, na esquina da João Pessoa com a Osvaldo Aranha, se lê: “Enquanto te exploram, tu grita gol”! E é aí que eu queria chegar. Porque essa frase não apenas é uma bobagem como traz nela um preconceito tacanho, que considera todo torcedor ou público de esporte um alienado, uma massa de manobra fácil. Na verdade, o ambiente esportivo na atualidade, se olharmos mais atentamente, vai se revelar recheado de movimentos políticos que merecem nossa atenção e nosso apoio. E que fique claro que aqui não falo de movimentos partidários, mas de uma política mais ampla, de direitos civis e questões semelhantes.
O exemplo mais recente aconteceu na noite de domingo, no Superbowl, a decisão do futebol americano nos EUA, considerada uma das maiores audiências da TV em todo o mundo. Artistas disputam desesperados a oportunidade de fazer o show do intervalo e ter uma vitrine gigantesca como essa. É de se pensar que seja puro entretenimento e só isso. E até poderia ser. Mas domingo não foi. Senão vejamos. A apresentação foi capitaneada pelos ingleses do Coldplay e não se engane, o visual na apresentação, pontuado pelas cores do arco-íris, assim como a frase “Believe in love” (“Acredite no amor”), feita em um mosaico nas arquibancadas, deixam claro que a mensagem a ser passada é de igualdade de direitos — e não por acaso, a apresentação foi considerada por diversos veículos nos EUA como um libelo a favor da liberação do casamento gay. Também não se deixe encantar apenas pelas curvas de Beyoncé, afinal ela tem muito mais a dizer — a cantora deixou o seu recado e ele é importante. “Eu gosto do meu cabelo afro / Eu gosto do meu nariz de negra com narinas de Jackson Five”, cantou no recém lançado single “Formation”. Não só o figurino da cantora fazia menção ao finado Michael Jackson, como suas bailarinas estavam com a vestimenta usada pelos Panteras Negras. Lembre de todas as questões raciais que recentemente agitaram os Estados Unidos e agora ligue os pontos. Ou seja, de um espaço dedicado ao entretenimento, dentro de um evento esportivo, vieram algumas das mensagens políticas mais contundentes desses últimos meses. E ainda tem quem ache que o esporte sirva apenas para divertir e alienar.
Quer mais? Temos mais, temos bem mais. Aqui no Brasil, por exemplo, temos dois casos bem recentes. O primeiro movimento foi dado pelos jogadores, através do Bom Senso F.C., que mostraram que são contrários a muita coisa que acontece no futebol brasileiro. Não demorou muito e os clubes se deram conta que unidos através da Primeira Liga têm mais poder do que imaginam e podem ter conquistas importantes. Ainda é um passo inicial e precisa de mais apoio. Mas é um bom começo. Até mesmo os torcedores estão se engajando em causas que deveriam ter o nosso apoio. A torcida do Liverpool é um belo caso. Indignados com a ganância do clube, que aumentou o preço dos ingressos, há um bom tempo deixaram claro, em faixas que são “torcedores, não clientes”. No último domingo, todos deixaram o estádio aos 77 minutos, em menção às 77 libras (R$ 433) cobradas pelo ingresso mais caro. Não só estão evidenciando a insatisfação, como estão fazendo algo para mudar a situação. Estão dando o seu recado. Estão fazendo política. Não estão se alienando, por mais que gostem de gritar gol.