O futebol brasileiro é um cadáver que te sorri

O tiro no pé da "pátria de chuteiras".


Duas partidas foram suficientes da Copa 2014 para que o torcedor brasileiro entrasse em choque. O time canarinho, aquele que sempre é favorito a todos os títulos foi impiedosamente espancado por duas vezes. Isso mesmo: duas vezes. E de forma humilhante, com adversários se poupando de forma tão visível que os próprios admitiram isso. E nos consolaram. Sentiram pena.

Sim, já fomos os melhores do mundo, o tempo passou e ficamos no meio do caminho. Mas tivemos de admitir isso de forma amarga. Entramos nessa copa inebriados pela conquista da Copa das Confederações; um torneio apronto que a FIFA organiza para testar a logística dos estádios. Não era um parâmetro confiável. Nunca foi.

Iniciamos a copa com um gol contra e uma vitória suadíssima contra a inexpressiva seleção da Croácia e terminamos sendo goleados em ritmo de treino pela Holanda, passando por empate contra o México e empate com penais contra o Chile até uma acachapante humilhação contra a Alemanha: 7x1. A pior defesa, um ataque inútil, meio campo que não existiu e o goleiro mais vazado. Quando pressionado os jogadores perdiam a cabeça, choravam e entravam em pânico. Nenhum controle mental.

Há muito o futebol brasileiro é um defunto em composição. Um cadáver que te sorri, cheio de jargões populares e populistas a arrotar arrogância, prepotência e atraso. Agarrado a tradições que não se sustentam mais e com gestão ultrapassada.A Confederação de futebol, CBF, é um feudo que exala negociatas. O bolor que a CBF nos mostra é a antítese de uma instituição democrática. Os dirigentes da maioria das federações são políticos com condenações na justiça. O calendário (incompatível com os principais mercados) é administrado por uma emissora de TV, que no fundo gerencia os torneios de modo a atender as prioridades dela. Os clubes são massas falidas a espera do perdão de suas dividas junto ao tesouro nacional. O marketing é incipiente ou inexiste, a maioria dos clubes atrasa salários e não cumprem as mais diversas obrigações.

Enquanto os clubes europeus melhoram a gestão e investem em trabalho de longo prazo, o campeonato nacional tem a média de um treinador demitido por rodada — e são 38 rodadas! — muitas vezes tem 3 ou 4 treinadores em um só ano. As categorias de base foram terceirizadas para empresários que negociam jogadores cada vez mais novos e cada vez com menos aprimoramento dos fundamentos e técnica. A cultura tática de jogadores e treinadores é pífia; o futebol é mal jogado e mal treinado. Os técnicos não se reciclam e vivem a dar vexames quando confrontam adversários no exterior.

O jogador brasileiro é cada vez mais indisciplinado dentro e fora de campo (simulam contusões e forçam cartões), sua conduta pessoal e profissional é incompatível com os altos salários que recebem. Imaturos e mimados, muitos são recusados na Europa. Os clubes financiam torcedores que cometem crimes e praticam brigas nos estádios. Em algumas partidas pessoas são mortas no entorno ou dentro dos estádios. A ultima rodada do Brasileirão ano passado teve partida cancelada por um tumulto generalizado, além de uma pendenga nos tribunais.

O cenário de médio e curto prazo é terrível. Nada vai mudar, nem mesmo com o vexame da Copa. A julgar pelas ultimas exibições, a classificação para a copa de 2018 será dificílima. Talvez não se concretize. Não revelamos nenhum craque e Neymar é um craque solitário, mas que quando não joga, nos deixa órfãos. Não temos base, não temos técnicos nem dirigentes. O cadáver que sorri disparou um tiro no pé que não sangra porque o defunto já está cheirando mal. A gente é que finge não sentir.

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