Herói esquecido

Do monte elevado eles observavam a floresta se estendendo escura e eterna. O tempo parecia não fluir ali, tendo ficado suspenso na atmosfera densa, ou entranhado junto do miasma esbranquiçado que escorria entre as árvores como tufos de algodão num rio de águas lentas.

Ian entendia agora que aquela era uma região ancestral. Não dos seus ancestrais, familiares e reconfortantes, mas de outros, muito mais antigos e com outras tradições. No dia anterior — ou teria sido ainda antes? — os homens encontraram ruínas incrivelmente primitivas, com círculos de grandes blocos de pedra e estatuetas esculpidas a semelhança de deuses animalescos. Passaram rápido pelo lugar, alguns deles ficando inquietos. Agora Ian tinha a impressão de ver as carrancas bestiais quando olhava para as brasas da fogueira do acampamento.

Saíram cedo na manhã seguinte, depois de um desjejum deprimente de carne enrijecida e raízes farinhentas. A medida que o sol subia, um orbe turvo por trás da atmosfera cinzenta, o dia esquentava. Isso e a marcha rigorosa faziam com que suassem sob as couraças. O terreno descia num declive suave, e então se tornava plano e as árvores ficaram mais esparsas. Marchavam em total silêncio.

Encontraram uma trilha quase apagada, a vegetação batida pela sua extensão. Ian seguia na frente. Esmigalhou uma mosca que pousara no seu pescoço e parou assustado. Logo à frente, depois de uma curva na trilha, havia um homem. Estavam quase em cima dele, de modo que era impossível que não os tivesse visto chegando. Não adiantava tentar se esconder agora. Ian sinalizou para que a tropa ficasse atenta e se aproximasse com cautela.

O homem vestia uma pesada armadura de cavaleiro, que um dia devia ter sido imponente. Estava sentado sobre uma pedra arredondada, a cabeça baixa e uma grande espada embainhada ao seu lado. Aparentava estar sozinho e não esboçara qualquer reação diante da aproximação do grupo.

“Saudações, cavaleiro” disse Ian com voz firme. O homem não se mexeu. Ian não reconheceu o brasão de armas em seu peito.

“Representamos a casa Crona. Lutas em nome de quem?”

O cavaleiro ergueu os olhos, e então os batedores viram seu rosto, um carão largo, uma cicatriz feia no olho esquerdo. Ele apenas os encarou de volta, dando conta de um por um com o único olho bom e por fim se fixando em Ian, sem dizer nada. Os homens se empertigaram, incomodados.

“Repetirei a pergunta, Senhor” disse Ian mais alto, a mão indo na direção da própria espada, preventivamente. “Que bandeira tu representas?”

A voz do cavaleiro veio baixa, falava mais para si do que para os outros.

“Deve haver uma forma de sair daqui”.

A resposta pegou Ian desprevenido. Virou para trás, e seus companheiros pareciam igualmente confusos. A essa altura, alguns dos mais atentos perceberam um odor de algo podre no ar. George, o mais impaciente da tropa, se adiantou, a espada curta já fora da bainha, apontando para o desconhecido.

“Você está surdo? Fale agora seu nome e o nome do seu senhor.”

“Ó, não me entenda mal” o cavaleiro disse, dando de ombros.

Se levantou e quando ficou de pé os homens se deram conta do seu porte impressionante, a cabeçorra erguendo-se bem acima das deles. Fez um gesto devagar para pegar a espada encostada na pedra, ao que os batedores recuaram, mas ele apenas levou-a embainhada à cinta e a prendeu ali. Então se virou e caminhou na direção do mato alto.

“Vocês viram um cavalo por aqui? Deixei meu cavalo por aqui” disse, com a voz perturbada. Caminhando hesitante por mais alguns metros, parando diante da vegetação densa. “Ah sim, aqui está”.

O cavaleiro se abaixou e ergueu do chão um emaranhado de heras entrelaçadas, e com ela uma nuvem de moscas se levantou e uma lufada de cheiro horrível atingiu os batedores. Sob a coberta vegetal havia uma enorme massa escura. O corpo do cavalo estava em avançado estado de decomposição, a barriga inchada como um barril, a pele retesada pelos gases que fermentavam nas suas entranhas. Na parte de trás do pescoço grosso, havia um corte profundo. Olhando para a fenda escarlate que era o ferimento, Ian percebeu larvas gordas e brancas se movendo na carne putrefata, e um estranho emaranhado de vinhas verdes que pareciam ter sido enfiadas ali com propósito e agressividade.

“Ó, não me entenda mal. Nós vamos para casa em breve” o herói de outros tempos disse, voltando-se para os eles, o rosto mutilado mais feio do que nunca.

Os batedores desejaram-lhe boa sorte e seguiram viagem.

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