Como vencer a agonia da tela em branco

Algumas dicas para preparar artigos e escrever melhor

Carlos Cabral
Jun 27, 2016 · 9 min read

Imagine-se tendo uma ideia revolucionária. Algo tão relevante que você se sente na obrigação de compartilhar com o mundo. Mas no momento que senta à frente do computador e vê o cursor piscando na tela em branco… Tudo trava. Alguma força faz com que nada decente apareça e ocorre uma batalha para buscar uma estrutura lógica convincente para pôr num texto. Esses minutos de agonia fazem com que muita gente desista de escrever.

É comum pensar que o esforço de escrever ocorre somente no momento em que enfileiramos as palavras na tela (ou no papel). Na verdade o trabalho começa muito antes, na construção de uma ideia que será estruturada e testada de modo a fazer sentido para o leitor.

Não procuro ser a voz da verdade nesse tema, mas compartilho aqui uma estratégia interessante e ótimas ferramentas que uso no meu trabalho. Esse processo é composto de duas fases: a estruturação, que envolve desde o processo de capturar a ideia até a pesquisa e o ato de redigir, contemplando a atividade de escrever, a revisão e publicação.

Espero que essas dicas sejam úteis para ajudar pessoas com ótimas ideias a vencer a ansiedade e colocá-las "no papel".

Estruturação: Ideias surgem em qualquer lugar

Você pode ter ótimas ideias para um texto em qualquer lugar, ou fazendo as coisas mais comuns. Mas para aproveitar melhor esses momentos de epifania é bom estimular o cérebro e ter boas ferramentas à mão. Pois assim como as ideias podem surgir em um rompante, elas se apagam da memória com muita facilidade.

Quem já desistiu de depender de papel e caneta para aprisionar ideias, pode contar com diversos aplicativos que registram textos rápidos. Já tentei fazer isso usando o Evernote e o Do Note do IFTTT, mas me adaptei melhor ao Google Keep, pois sua usabilidade é mais rápida e ele trabalha com textos, áudio e imagens.

Também há vários caminhos para estimular a criatividade e absorver melhor o conhecimento; eu poderia falar sobre alguns deles aqui, mas prefiro recomendar algo muito melhor: o curso "Aprendendo a aprender: ferramentas mentais poderosas para ajudá-lo a dominar assuntos difíceis" da Doutora Barbara Oakley, professora de engenharia da Universidade de Oakland e de Terrence Sejnowski, professor do Salk Institute for Biological Studies. O treinamento é promovido pela Universidade de San Diego e está disponível com legendas em português gratuitamente no Coursera.

Estruturação: Seleção de fontes para a pesquisa

Em minha opinião, ideias são como estruturas: podem ser frágeis a ponto de desmoronarem frente à força de outra melhor fundamentada. A história da ciência é marcada por teorias que ocupam posição de destaque por um tempo e depois são substituídas por outras formas de interpretar o mundo.

Portanto, mesmo que uma ideia pareça excelente, é recomendável que ela seja testada, virada do avesso e olhada por todos os ângulos possíveis.

Há muito material enviesado e mentiroso na internet, o que demanda cautela ao selecionar as fontes. Consumo muito do que os sites de notícias produzem, mas quando quero me aprofundar em um tema, procuro privilegiar os artigos acadêmicos pois, embora não haja garantia de que estes sejam isentos de picaretagem, eles ainda assim são um caminho mais seguro que a mídia. Pelo menos para os textos que produzo em meu trabalho.

Uso o Feedly para ter o primeiro contato com as notícias e faço filtros por temas específicos no Twitter usando o TweetDeck. Uma boa fonte de trabalhos acadêmicos é o Academia.edu com um volume imenso de trabalhos postados pelos próprios autores e também uso muito o Library Genesis, um repositório imenso de livros e artigos.

Quando seleciono algo elegível para usar em um texto, guardo o material no Pocket e, depois de capturar o suficiente, parto para o trabalho duro de analisar as fontes com cuidado na etapa de fichamento.

Estruturação: Fichamento

A expressão "fichamento" vem de uma época em que as pessoas não usavam computador e copiavam citações ou inseriam suas observações em uma ficha para cada material analisado. Depois as fichas eram consultadas no momento de escrever, pois ter de voltar ao livro original poderia significar um retorno à biblioteca. Vivemos em outros tempos.

O Kindle possui um mecanismo que permite marcar um trecho de um texto ou marcar e inserir uma nota. Depois da sincronização do eReader as notas e citações podem ser recuperadas em seu perfil no site da Amazon. Isso ajuda, mas a resposta ao toque no dispositivo é muito lenta, por isso prefiro montar os meus fichamentos no Evernote, pela facilidade de uso e pelo seu mecanismo de sincronização e busca.

Quando estou lendo livros físicos ou no Kindle e preciso guardar uma citação, uso o Google Goggles para fazer um OCR do texto e colo no fichamento no Evernote com meus comentários. O próprio Evernote tem um recurso parecido, mas tive alguns problemas com ele e nunca mais usei.

Ao ler textos no computador faço o fichamento como na imagem abaixo. Uso o recurso de Split View do OS X, que divide a tela e vou extraindo citações e comentando à medida que leio o texto, o processo fica bem mais rápido.

Há um recurso semelhante ao Split View no Windows 10 e o FakeXRandR se propõe a fazer a mesma coisa para usuários do Linux, mas confesso que nunca testei.

Estruturação: desenhando a estrutura

Ao se satisfazer das fontes é hora de estruturar ideia. Como disse acima, ideias são como estruturas e elas precisam ter ligações fortes. Então nesse momento procuro listar tudo que foi possível absorver em um mind map.

Um exemplo dos meus rabiscos

Já testei muitos softwares de mind map, mas nunca consegui me adaptar. Pois essa coisa de escolhe o tipo de linha, o tipo de balão, a cor da linha, a cor do balão me tiram a atenção. Sei que estou sendo injusto com a técnica, mas prefiro lápis e papel. De uma maneira bem simples uso um balão no centro e tantas ramificações quantas forem necessário, depois comparo o que elegi como interessante com minhas notas do fichamento. O importante é que tudo que foi absorvido esteja ali.

Esse índice não é meu (na verdade não sei de quem é) mas ilustra bem a ideia

Olhando o mind map é possível eleger os temas que serão contemplados na seção de introdução, em que você apresenta o tema que irá tratar, desenvolvimento, em que apresenta os argumentos sobre o tema e conclusão, onde dá o arremate. Penso nisso como uma receita de bolo em que se apresenta os ingredientes, o modo de preparo e depois a cobertura. Procuro fazer essa seleção como se tivesse construindo um índice de um livro, mencionando cada tema em uma ordem de execução.

Entretanto, o mais importante nessa fase, e claro também no momento de escrever, é contar uma história. Algo que situe o leitor no começo, possua um clímax na entrega da ideia e que no final faça seu leitor se sentir retribuído por cada minuto em que ele deixou de fazer outra coisa para dar atenção a você.

Redigir

Beleza… Agora sim. Vamos escrever. Esse é o momento de desrespeitar todas as regras. Inclusive as ortográficas.

Quando escrevo ponho aquele "índice" ao lado (usando o Split View) e começo a desenvolver o texto abordando cada um dos temas. Mas não deixo a lista me dominar, na verdade ela é uma referência assim como o idioma é para mim, nesse momento uma referência. Não presto atenção em erros e simplesmente deixo o texto jorrar. Também não leio o que escrevi nesse momento, porque isso poderia iniciar um movimento viciado de revisão. Não se preocupe, você terá o momento de revisar. O importante é pôr o texto pra fora.

A tática para a criação do primeiro parágrafo é algo que está relacionado ao estilo da cada um. Os jornalistas possuem técnicas para isso, como no "lead" da pirâmide invertida. Mas como disse, esse é o momento de desrespeitar tudo e se você quer começar o seu texto de outra maneira, porque tudo fará sentido no final, quem sou eu para ditar algo?

Aposto que você terá muito mais segurança em começar o texto caso tenha cumprido com as etapas acima, pois sua preparação foi mais intensa.

Somente tenho uma preocupação nesse momento: a de atrair o leitor. Portanto se eu estiver fazendo uma crítica contra uma coisa, procuro apresentar os argumentos contra a tal coisa no meio do texto e não logo de cara. Pois se fizer isso, tenho mais chance de afastar leitores e falar somente para os convertidos do que apresentar uma perspectiva nova sobre um tema para os outros. Mas se a "sapatada" logo de cara fizer sentido para o seu texto, faça.

Depois que terminar o texto, deixe ele dormir. Isso depende da agenda de cada um e nem sempre é possível, mas é recomendável revisar os textos um dia ou dois depois. É sempre importante dar um tempo para si e para o texto antes de revisar.

Redigir: revisar é encarar seus demônios

A primeira coisa que faço no processo de revisão é, sem questionar nada, passar um corretor ortográfico. Vai que você dá sorte e todos os argumentos estão bem estruturados, só tendo que fazer correções no idioma? Nunca tive essa felicidade, mas não perco a esperança.

Depois lembro da minha professora da quarta série.

Ideias são como estruturas. Se você não testar minuciosamente todas as ligações que estruturam a sua ideia, outros farão por você. Tive uma professora — Fátima o nome dela — que criticava a minha letra, a forma em que eu escrevia, tudo… Era um tormento, eu era um rebelde, mas só depois percebi que ela queria extrair o melhor do meu texto e hoje devo quase tudo a ela.

Esse é momento de questionar tudo, tentar encontrar argumentos que destruam a sua ideia e ter a humildade para reconhecer erros e fazer acertos necessários. Mas fazer isso de uma maneira que não lhe impeça de se expressar, como uma professora que te aponta erros, mas para seu texto sair melhor.

Outra coisa que ajuda bastante na revisão é ler o texto em voz alta. Isso é ótimo para identificar falhas no ritmo e trechos que podem ser melhorados.


Deixo aqui um trecho de um texto meu que tem um grandioso erro conceitual, falamos mais sobre ele na próxima seção:

"Os pesquisadores puderam perceber que o “califado virtual” opera como uma marca, produzindo conteúdo para cada tipo de público alvo (inimigos, simpatizantes e passíveis de recrutamento) e o tempo todo abastecendo a narrativa da Charia."

Redigir: Chame os amigos para revisar

O processo de revisão não é essencial somente para identificar falhas que estão no texto, mas também para encontrar coisas importantes que se deixou de falar. E é pra isso que servem os amigos.

O trecho acima é da primeira versão de um texto em que falei da atuação dos simpatizantes do Estado Islâmico (ISIS) nas redes sociais. Dependendo da forma que isso for lido é possível interpretar que as regras da Charia são iguais ao discurso terrorista do ISIS, o que não é verdade e seria uma injustiça com a comunidade islâmica. Quem sacou isso foi o Leonardo que, junto com a Bianca sempre revisam os textos que publico aqui no Medium. E frequentemente peço a ajuda de outras pessoas também.

Feito isso, vale a pena fazer mais uma revisão ortográfica, pois o texto com certeza será diferente do primeiro.

Publicação

Ao sentir que a coisa tá pronta, bate um assanhamento em desovar o texto nas redes sociais o quanto antes e de qualquer jeito. Mas vale a pena ter um carinho com o post nessas redes para não parecer um garçom que joga o prato na mesa.

Sugiro aqui escrever um post curto com um panorama do assunto tratado pelo artigo. Assim, por mais que seu leitor resolva não ler o texto imediatamente, poderá se sentir instigado a salvar o link para ler depois.

O mais importante

Estimular a escrita é algo que venho fazendo na comunidade em que faço parte. Um grupo formado por gente cheia de ótimas ideias, mas infelizmente com poucos se dedicando a registrá-las. Sei que produzir artigos não é uma tarefa fácil, mas posso garantir que ela também não é tão difícil assim, sobretudo se você fizer algo que considero de suma importância para alguém que se dedica a escrever; se render ao prazer da leitura.

Quando ouço alguém dizendo que não gosta de ler, é para mim o mesmo que ouvir alguém dizer que não gosta de rock. Existe um mundo de estilos dentro do rock, da mesma forma que existe um mundo de tipos de livros para ler. Não há como não achar algo que não se goste. Desbrave esse mundo, se encontrar algo que não goste nos primeiros capítulos, descarte e pegue outro. Ninguém tem a obrigação de terminar livros que não gosta (exceção, feita aos estudantes), mas com certeza essa atividade fará você encontrar algo que te cative e quanto mais você ler, melhor será o seu vocabulário e seu estilo irá emergir como mágica. Vai por mim.

Thanks to Leonardo Carvalho

Carlos Cabral

Written by

Head of Content Production na Tempest. Escrevo sobre hacking, ataques, vulnerabilidades e outros assuntos do universo da segurança da informação.

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