Rumo a uma plataformização do social

Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG. 
Em agosto de 2017, inicia um estágio pós-doutoral (com bolsa CAPES, processo 88881.119913/2016–01) no Departamento de Media Studies da Universidade de Amsterdam, na Holanda.

Este artigo foi publicado originalmente na edição 53 do jornal Letras, que pode ser baixado aqui.

A polêmica em torno do Facebook por não impedir, ou pelo menos dificultar a circulação das chamadas “fake news” durante a eleição que resultou na vitória de Trump nos EUA. É recorrente proibição de fotos de nudez - frontal e feminina, principalmente - em sites como o Instagram e o Facebook. Na Itália, as operações da Uber foram suspensas por um juiz sob a acusação de “concorrência desleal”.

Estes casos recentes são exemplares não só da centralidade ocupada pelas chamadas “redes sociais” no nosso cotidiano, mas principalmente da dimensão política das mediações exercidas por elas na contemporaneidade. De forma crescente, as relações indissociáveis entre tecnologia, as práticas 
dos usuários e as implicações socioeconômicas vêm sendo discutidas por um conjunto de estudos acadêmicos chamados de Estudos de Plataforma (em inglês, “Plataform Studies”). Fortemente ancorado na tradição dos estudos sociais de Ciência e Tecnologia (STS, em inglês), os Estudos de Plataforma chamam a atenção para a refinada articulação entre as dimensões técnicas, políticas e econômicas que constituem as redes sociais online e outros ambientes digitais (como os games, que foram os primeiros objetos de 
estudo dessa perspectiva teórica). Compreender as plataformas, assim, é desvendar uma complexa trama que envolve, além das dimensões citadas, uma melhor compreensão da diversidade de usos (por vezes criativos e táticos) que pessoas comuns, especialistas, instituições etc fazem das materialidades disponíveis.

Um dos principais autores dessa abordagem, Tarleton Gillespie (2010) aponta que, em um primeiro momento, o termo “plataforma” foi usado por serviços como o YouTube e Google como parte de uma estratégia de se posicionarem como meros “intermediários” no cada vez mais complexo ecossistema 
midiático. Presente também na célebre definição de Tim O’Reilly para web 2.0 (“web as plataform…”), para Gillespie (2010) o termo representa de uma estratégia discursiva que visa invisibilizar as mediações sociotécnicas realizadas através dos algoritmos, dos termos de serviço, dos sistemas de recomendação etc. Slogans como “Brodcast Yourself ” e “Don’t do evil” - adotados por YouTube e Google, respectivamente -tentavam então 
sintetizar o compromisso dessas empresas com a liberdade de expressão e a diversidade de pontos de vista - em oposição às posturas restritivas das “velhas mídias”, como jornais e emissores de TV.

O exponencial crescimento no valor de mercado dessas e outras empresas de tecnologia, o crescente potencial econômico dos dados coletados de todos os usuários e um acirramento das práticas de vigilância, inclusive de cidadãos comuns, são alguns dos aspectos que, nos últimos anos, contribuíram para uma derrocada das visões mais otimistas. O próprio termo web 2.0, comum há cerca de 10 anos, hoje mostra-se obsoleto, inocente até. Em substituição à ideia de “cultura participativa” e a potencial “inteligência coletiva” das redes sociais online, os estudos recentes enfatizam como questões técnicas 
(como o uso ostensivo de bancos de dados e algoritmos), legais (as restrições à circulação de conteúdos protegidos por copyright, por exemplo) e morais (a proibição, muitas vezes pouco criteriosa, a imagens contendo algum tipo de nudez) nos obrigam a olhar para as múltiplas dimensões em que agem 
as plataformas digitais.

A maleabilidade técnica e a opacidade das plataformas ficam bastante evidentes quando olhamos para a operação dos algoritmos de seleção e hierarquização de conteúdos. O funcionamento do “Feed de Notícias” do 
Facebook, por exemplo, é alterado frequentemente. Por exemplo, ora são privilegiadas as postagens de amigos, ora de páginas com fins informativos. Essa oscilação depende, entre outros fatores, dos testes e experimentos - pouco ou nada transparentes -pelos desenvolvedores da plataforma e da pressão política por parte de empresas jornalísticas e ativistas, entre outros. No momento, as pressões para minimizar a circulação das chamadas “fakes news” tem impactado diretamente as diretrizes de circulação na plataforma presidida por Mark Zuckerberg. Já as postagens patrocinadas, claro, têm 
uma visibilidade significativamente maior do que as “orgânicas”.

Para pesquisadora holandesa Anne Helmond (2015), passamos hoje por uma 
“plataformização da web”, pois nota-se uma adoção, por diferentes tipos de serviços baseados na internet, do modelo de infraestrutural e econômico das chamadas mídias sociais. Adotando uma “abordagem computacional”, a autora explica que essa plataformização está baseada, entre outros aspectos, no aumento generalizado das possibilidades de programação, o que favorece principalmente a adoção de protocolos de acesso e intercâmbio de dados 
entre plataformas. Neste sentido, uma plataforma como o Facebook se impõe como um modelo (em termos infra-estruturais, inclusive) que se estende para ambientes online externos a ela — por exemplo, ao induzir outros sites a se adaptarem para abrigar seus plug-ins sociais, como o Like Button. De modo complementar, essa plataforma de mídia social usa as extensões externas para formatar e processar os dados de modo a potencializar seu interesse econômico nas informações geradas por usuários. Nestes movimentos de descentralização e recentralização das plataformas, a programabilidade está portanto diretamente relacionada à sua potencialidade comercial.

Para bem além de serviços como Facebook, a pesquisadora José Van Dijck aponta para uma um crescente impacto da plataformização em setores como educação, saúde e notícias. Para essa pesquisadora, de forma cada vez mais 
evidente estamos organizando nossas rotinas e atividades mediadas por essas plataformas, por isso estaríamos vivendo em uma “Sociedade da Plataforma”. Cinco empresas - Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft- estão por trás de praticamente todas as operações baseadas na web. Na palestra de abertura do encontro anual de pesquisadores de internet (AoIR), em 
2016, Van Dijck chama atenção especialmente para os casos da Uber e do AirBnB. Estes serviços (de transporte e de hospedagem, respectivamente) se popularizaram sob a percepção de que não só são mais baratos que táxis e hotéis, mas também mais eficientes, personalizados, seguros e, por 
romperem com oligopólios regulados, mais “democráticos”. Van Dijck chama a atenção, porém, aos efeitos colaterais desses serviços. No caso do AirBnB, a dificuldade de moradores para alugar casas e, de forma mais ampla, uma significativa resignificação da noção de vizinhança são algumas das 
questões em discussão principalmente em cidades com grande fluxo turístico.

Quem regula a Sociedade da Plataforma?, pergunta Van Dijck ao descrever uma notória paralisia de instituições nacionais e transnacionais frente ao avanço dos serviços baseados em dados. O desafio agora, aponta ela, é 
discutir que “valores públicos” as plataformas devem incorporar. É urgente negociar como questões de interesse comum de grupos sociais locais, nacionais etc devem ser respeitados e incorporados nas plataformas que, mui-
to mais do que intermediar, agem fortemente nas dimensões cotidianas e politicoeconômicas da sociedade contemporânea.

Bibliografia
GILLESPIE, Tarleton. The politics of ‘platforms’. New Media & Society, v. 12, n. 3, p. 347–364, 2010.

HELMOND, Anne. The platformization of the Web: Making Web data platform ready. Social Media + Society, v. 1, n. 2, p. 1–11 , 2015.

VAN DIJCK, José. #AoIR2016: Opening Keynote “The Platform Society” by José van Dijck. Publicado 02 nov. 2016. Disponível em <https://
www.youtube.com/watch?v=-ypiiSQTNqo>