Aquele olhar Quasímodo


Ele levantou a faca.

O vestido florido dela ainda lhe causou certo sentimento de felicidade; aquelas cores de flor que faziam seus olhos tão lindos, tão paradisíacos, e seu sorriso, tão sumamente cativador. Como ela era adorável! Mas ela já tinha virado as costas; nem estava mais olhando para ele naquele momento, daquela mesma maneira que ela sempre fazia quando não lhe interessava o tema que ele queria abordar. Sempre fazia isso. Em especial, lembrava daquela vez em que os dois tinham discutido um tema tão idiota que nem lembrava mais no momento, e ela simplesmente virou as costas para ele e fingiu — muito exageradamente — que não estava mais ouvindo. Aquele vício tinha vindo daquele amigo imbecil que ela tinha feito alguns anos depois de se conhecerem. O sujeito era um vagabundo puxa-saco que passou semanas flertando com sua namorada, até que, por fim, percebeu que eles dois tinham uma relação. Nunca gostou dele. Sempre o odiou. E ontem tinham se visto. Quando ele chegou no restaurante, ela e ele já estavam esperando, comendo quem sabe o quê — frutos do mar? — , eles dois juntos, se olhando, se falando, como duas criaturas repugnantes. Beijou sua namorada, ignorou-o. Aliás, não ignorou; dedicou um instante a aquele miserável para mostrar que o estava ignorando. Nem queria estar naquele restaurante; queria ficar em casa, assistindo um filme com sua namorada, mas ela tinha trocado o programa no último momento porque tinha muita — muitíssima, para usar a palavra certa — vontade de comer frutos do mar. E aquele imbecil ainda começou a flertar de novo! E ele estava em frente! Teve muita vontade — muitíssima também — de pular por cima da mesa e socar aquela boca grotesca que o animal tinha, deixá-lo com boca de caranguejo. Aquele olhar Quasímodo causava-lhe náusea, aquela boca, digna de uma máscara de ópera, dava-lhe calafrios. Como podia essa criatura amorfa beijar alguém? Como ele conseguiu? Nunca gostou dele. Sempre o odiou.

Ele desceu a faca.

Rio de Janeiro, 3 de maio de 2014
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