Crônica de um gato


Eu era um simples gato de rua, um desses mendigos que nunca lambem a sujeira do pelo. Eu não era distinto desses gatos sujos que nasceram, como eu, naquele beco nojento que nem os ratos pisavam. Não havia ali nada que morder, nada que arranhar nem nenhuma comida que um gato pudesse qualificar como boa.

Mas tudo isso mudou quando a conheci. Sim, ela, a mulher com cheiro de gato. Ela salvou-me, tirou-me daquele beco sujo e levou-me para sua casa. Ali comi muitos peixes durante muitos dias. Brinquei com fios de lã, mordi sacolas de plástico e pulei de móvel em móvel tanto quanto quis. Aquele era meu paraíso. Mas, de novo, tudo mudou.

Ela começou a trazer outros animais para casa. Primeiro foi um pássaro que ficou enjaulado longe dos meus dentes. Logo foram tartarugas, peixes, iguanas, cobras que comiam ratos e até um gato bobo que não conseguia lamber a ponta do rabo. Aprendi a ignorar todos eles, mas não pude ignorar o fato de que a minha comida e meu espaço tinham diminuído. Aquilo foi intolerável. Eu, o primeiro de todos, tinha que compartir a minha vida com essas criaturas. De jeito nenhum podia aceitar isso. Então fui embora.

Eu não queria voltar a ser um gato de rua, sujo e fedorento, assim que imitei o sistema dos humanos de rua. Desse jeito comecei a fazer o que hoje faço: peço dinheiro para conseguir peixe, a minha paixão. Nunca voltei a ver a humana com cheiro de gato, mas tenho a sensação de que ela me observa desde algum lugar e me protege.

Fortaleza, 3 de agosto de 2009
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