Deserto branco


Eu sou uma sombra. Nasci num lugar que ainda hoje não conheço. A minha memória começa no momento em que apareci neste deserto branco, ermo e silencioso. É um lugar quase vazio, sem nada mais que estas estátuas pretas, multiformes, que me acompanham aonde vou. Eu sou uma sombra. Apareço e desapareço involuntariamente, sem motivos próprios, como um boneco sendo utilizado por uma criança. Não importa quantas vezes a minha história termine; ela volta a começar, uma e outra vez. Minha vida é eterna. Ninguém nunca esquece de mim. Eu sou uma sombra.

A primeira vez que nasci, eu não tinha a minha personalidade definida, e meus motivos para viver não eram claros. Guiado, dirigido e dominado por essa vontade anônima que me situou em muitos lugares e em nenhum, que me fez passar por as mais distintas situações que jamais aconteceram, foi a mãe que me educou e o deus que me iluminou e que um destino me deu. Todo o que aconteceu comigo foi pensado, pautado e estabelecido. Minha família, meus amigos, minha casa… tudo me foi dado por decisão de algum ser superior.

Página após página, minha história se repete agora mesmo nas mãos de alguém. Hoje ela pode estar sendo contada, comentada, traduzida, adaptada e até analisada por um número incontável de pessoas. Neste deserto branco eu sou eterno, imortal. Eu sou uma sombra.

Fortaleza, 21 de setembro de 2009
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